sábado, 17 de maio de 2014

O Decálogo no Éden - II

A descrença de que Adão e Eva tinham o pleno conhecimento da lei de Deus antes de transgredi-la, ocorre por desinformação ou por oposição intencional. Neste último caso, prevalece o intuito de combater a obediência universal exigida pela lei, pois, sendo ela transmitida desde o período do Éden, de imediato anula-se qualquer alegação de que teria sido entregue unicamente no monte Sinai e, destinada apenas para os israelitas(a).

Essa atitude mórbida de não suportar a onipresença da lei, além de acarretar cegueira espiritual, conduz os mais exaltados a confrontar abertamente o posicionamento oficial de suas respectivas igrejas, a saber: o ensino escriturístico da existência e vigência da lei de Deus (Dez Mandamentos) desde a fundação do mundo. Adiante a posição doutrinária de algumas delas.

Igreja Anglicana
"O pecado original não se detém ao lado de Adão (como os pelagianos(b) inutilmente dizem), porém ele é a culpa e corrupção da natureza de cada homem, que naturalmente procede da descendência de Adão; por meio dele o homem está muito longe da retidão original, e é de sua própria natureza inclinar-se para o mal, de modo que a carne sempre deseja contrariamente ao Espírito; (...) não está sujeita à lei de Deus."1

Igreja Assembleia de Deus
"O pecado atinge toda a raça humana, a partir de Adão e Eva (Gn 3Rm 5.12). (...) O pecado originou-se nas regiões celestiais quando o Diabo, querubim que servia na presença de Deus, encheu-se de arrogância e desejou usurpar o trono do Criador (Is 14.13,14). Por sua livre vontade escolheu o caminho do pecado, o que motivou sua destituição das suas funções celestiais, condenação, e execração eterna. (...) 'Todo pecado é transgressão da lei' (1 Jo 3.4). Transgredir significa infringir, violar, quebrar a lei, passar dos limites. Todo e qualquer mandamento divino deve ser obedecido, pois, desobedecê-lo significa transgredi-lo. (...) Adão, como representante da raça humana, também sucumbiu diante do pecado, sujeitando todos os seus descendentes aos aguilhões do mal moral; tornando-o, portanto, universal a todas criaturas racionais, e afetando até mesmo a criação."2
"Como resultado da queda o homem teve: 1) Conhecimento do mal. Antes da queda o homem era capaz de pecar, contudo, desconhecia os efeitos que isso provocaria. Ao desobedecer, ele adquiriu esse conhecimento do pecado, e por essa razão foi-lhe proibido comer do fruto dessa árvore do conhecimento do bem e do mal. Gn 3.222) A Perda da comunhão com Deus. Havendo quebrado à lei de Deus, o homem sentiu-se envergonhado na Sua presença. Essa vergonha destruiu a comunhão com Deus, causando grave prejuízo."3
"Os Dez Mandamentos foram pronunciados por Deus e escritos por Ele em duas tábuas de pedra, Êx 31.18. Foram escritos de ambas as bandas, Êx 32.15. Não se deve pensar que não existia nada destes mandamentos, antes de Moisés. Foram escritos nas mentes e nas consciências dos homens desde o princípio. Não há pecado que não é condenado por um dos Dez Mandamentos. A súmula do Decálogo é o dever para com Deus e o dever para com o próximo; melhor, é o amor para com Deus e o amor para com o próximo."4

Igreja Batista
"Acreditamos que o homem foi criado em santidade, subordinado à lei de seu Criador; mas por transgressão voluntária caiu desta condição santa e feliz. Por consequência todos os homens são agora pecadores, não por coação, mas por escolha; sendo por natureza completamente destituído da santidade exigida pela lei de Deus, inegavelmente inclinados para o mal e, portanto, sob justa condenação à ruína eterna, sem defesa ou desculpa."5
"A mesma lei que foi escrita no coração do homem, continuou a ser uma perfeita regra de justiça após a queda, e foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos escritos em duas tábuas, os quatros primeiros contendo nosso dever para com Deus, e os outros seis o nosso dever para com o homem."6
"Acredito que, a partir da mesma autoridade que Deus criou o homem à imagem de Seu próprio e glorioso caráter moral, um tema peculiar de Seu governo virtuoso, com disposições propriamente ajustadas à lei que ele estava subordinado e idêntica capacidade para obedecê-la ao máximo, contra todas as tentações em contrário, creio que, se Adão ou qualquer criatura santa, tivesse elaborado uma lei para si mesmo, ele teria feito uma precisamente como a lei de Deus; visto que seria uma enorme privação para um indivíduo santo, não ser permitido amar a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e todo o seu entendimento."7

Igreja Congregacional
"Deus entregou a Adão uma lei, como um pacto de obras, pela qual Ele o submeteu e toda sua posteridade, a uma obediência perpétua, pessoal, completa e perfeita; prometeu vida sob a condição de cumprir e ameaçou de morte em caso de violar a mesma, e dotou-lhe com poder e capacidade para guardá-la. Essa lei, após sua queda, continuou a ser uma perfeita regra de justiça; e, como tal, foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos, escritos em duas tábuas: os primeiros quatro mandamentos contêm o nosso dever para com Deus; e os outros seis, o nosso dever para com o homem."8
"Aprendemos com este assunto o absurdo do antinomianismo(c). Duas doutrinas antinomianas proeminentes são: que a lei de Deus não é um regulamento de dever para os cristãos; e que as transgressões dela pelos cristãos não são pecados.
Pecado, diz S. João, é a transgressão da lei(d). É uma forte afirmação; nesse caso, uma declaração exigindo justificação na qual nenhum homem pode pleitear: que não há tal coisa, ou, que não existe este assunto de transgressão da lei, que não é pecado. Por qual razão não seriam pecaminosas as transgressões dos cristãos? Seriam eles seres santos? Adão era perfeitamente santo, até sua transgressão arruinar o mundo. Anjos eram perfeitamente santos, em um estado muito superior ao de Adão, mas suas transgressões os afastaram do Céu! Porque estariam os cristãos liberados?"9

Igreja Luterana
"Estas foram as razões, porque, na descrição do pecado original fizemos menção também da concupiscência. (...) o pecado original também contém estas enfermidades, a saber: ignorância de Deus, desprezo de Deus, caráter destituído de temor e confiança em Deus, incapacidade de amar a Deus. Estas são as principais falhas da natureza humana, conflitantes especialmente, com a primeira tábua do Decálogo."10
"O primeiro pecado do homem, ou queda, foi a transgressão da lei do Paraíso, na qual os nossos primeiros pais violaram uma interdição divina que proibia-lhes de comer o fruto da 'árvore do conhecimento do bem e do mal' (...). Nossos primeiros pais, na queda, violaram diretamente uma lei positiva, porém de forma indireta e praticamente, através da desobediência deles, quebraram do início ao fim as limitações de toda a lei Moral(e)."11
"O catecismo luterano, fornece a seguinte definição: 'Pecado original consiste em uma propensão para as coisas proibidas pela lei de Deus e uma aversão à Sua vontade'. Na apologia da confissão(f), encontramos a seguinte definição: 'Pecado original consiste na primeira ausência de santidade e justiça no paraíso'."12

Igreja Metodista
"(...) a lei Moral, constituída por Dez Mandamentos e ministrada pelos profetas, Ele [Jesus Cristo] não removeu. Não foi o objetivo de Sua vinda, revogar qualquer parte dela. Esta é uma lei que jamais pode ser inutilizada; que 'permanece firme como uma testemunha fiel no Céu'(g). (...) surgiu desde o princípio do mundo, sendo 'escrita não em tábuas de pedra', mas no coração de todos os filhos dos homens, quando saíram das mãos do Criador."13
"(...) Se examinarmos a lei de Deus, assim como igualmente entregue a Adão, ou a Moisés, nós a encontraremos perfeita e sem defeito, respeitada em si mesma. Pois em verdade, 'a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.'(h) Procedendo de Deus, a fonte de santidade, justiça e bondade, ela deve necessariamente possuir estes atributos. Pode, portanto, ser justamente chamada de 'transcrição de Sua natureza'."14
"(...) É verdade, Adão não tinha a lei escrita em tábuas de pedra; mas ela foi escrita em sua mente. Deusimprimiu-a em sua alma, lhe estabeleceu uma lei em si mesmo (...). Todas as suas paixões, na verdade, todos os seus interesses e sensíveis impulsos eram subordinados à sua razão e vontade, as quais estavam de acordo com a vontade de Deus. Eram completamente, por consequência, puros de toda profanação, livres de toda desordem ou imperfeição; pois todas as suas atitudes estavam devidamente submetidas a sua límpida razão e sua santa escolha. Ele tinha também uma faculdade ativa, responsável por seu desejo, uma capacidade para fazer o bem que ele sabia que deveria ser feito, e se dispusera a fazer; exatamente para cumprir toda a lei de Deus. Se não fosse assim, Deus não teria requerido a perfeita obediência dele."15

Igreja Presbiteriana
A "The Westminster Confession of Faith"16 (confissão de fé adotada pela igreja Presbiteriana), defende integralmente a mesma doutrina apresentada pela "The Savoy Declaration of Faith and Order" em seus artigos I e II do capítulo XIX. Desde modo, para evitar redundância deste conteúdo, releia acima (caso haja necessidade) a citação de número 8, da igreja Congregacional.
O catecismo da igreja Presbiteriana nos Estados Unidos, após revisão e aprovação feita pela Assembleia Geral (ocorrida em maio de 1829, na cidade de Princeton, Kentucky), expõem:
Pergunta: O que é pecado?
Resposta: Pecado é qualquer falta de concordância ou transgressão da lei de Deus.
Pergunta: Qual foi o pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados?
Resposta: O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados, foi a cobiça de comer o fruto proibido.
(...)
Pergunta: Qual é o dever que Deus exige do homem?
Resposta: O dever que Deus exige do homem, é a obediência à Sua vontade revelada.
Pergunta: O que Deus em primeiro lugar revelou ao homem como regra de sua obediência?
Resposta: A regra que Deus revelou primeiramente ao homem para sua obediência, foi a lei Moral.
Pergunta: Onde está a lei Moral resumidamente compreendida?
Resposta: A lei Moral está resumidamente compreendida nos Dez Mandamentos.17
"A confissão de fé, adotada tanto pela Antiga e Nova Escolas Presbiterianas, afirmam que 'todo pecado, tanto original e atual, sendo uma transgressão da justa lei de Deus e contrária a esta, produz em sua própria natureza a culpa sobre o pecador, por ele [pecado] está destinado à ira de Deus'."18

Igrejas Reformadas
"Por pecado entendemos a corrupção inata do homem que tem sido derivada ou propagada em todos nós a partir de nossos primeiros pais (...) Repletos de toda a maldade, desconfiança, menosprezo e ódio a Deus, somos incapazes de fazer ou até mesmo pensar algo bom por nós mesmos. Ademais, mesmo ao envelhecermos, através de maus pensamentos, palavras e atos praticados contra a lei de Deus, produzimos publicamente frutos corruptos digno de uma árvore do mal (Mateus 12:33 ss)."19


b. Adeptos do pelagianismo. Esta doutrina ensina que: o homem, em essência, possui uma natureza bondosa; a fragilidade humana não é fator de atos pecaminosos; o pecado de Adão não afeta seus descendentes; o homem é completamente responsável por sua própria salvação; e, que a graça divina apenas auxilia na santificação.
c. Movimento ideológico que vale-se da graça divina para defender a abolição de regras ou preceitos da lei; filosofia que confronta os padrões de conduta determinados pela lei de Deus; que desvia-se da lei divina.
d. Citando I João 3:4 (cf. Romanos 4:15; Romanos 7:7).
f. Apologia da Confissão de Augsburgo (The Apology of the Augsburg Confession).
g. Em referência a Salmos 119:89 (cf. Êxodo 34:28, Apocalipse 11:19).
h. Citando Romanos 7:12.
1The Book of Common Prayer: The Sacraments, Rites and Ceremonies of the Church. (1853). New York: Printed by Appleton & Company, art. IX, p. 540.
2Lições Bíblicas: Jovens e Adultos, Rio de Janeiro: CPAD, 4.º trimestre de 2006, lição 08 (O Pecado, a Transgressão da Lei Divina).
3. OLSON, N. L. (1994). O Plano Divino Através dos Séculos, 14.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 25.
4. BOYER, O. S. (1966). Pequena Enciclopédia Bíblica, 1.ª ed., Rio de Janeiro: CPAD, p. 237; (verbete: "Dez Mandamentos").
5The New Hampshire Confession of Faith (1833), chap. III (Of the Fall of Man).
6The 1677/89 London Baptist Confession of Faith, chap. XIX, art. II.
7. MANLY, B. (1856). The American Baptist Memorial: a Statistical, Biographical and History Magazine, vol. XV, Richmond, Virginia: Printed by H. K. Ellyson, art. IV, p. 346; (transcrita de "Andrew Fuller's Confession of Faith". Esta obra foi entregue em 07 de outubro de 1783 pelo teólogo e ministro batista Andrew Fuller que, na ocasião, era pastor da Primeira Igreja Batista em Kettering, Northamptonshire).
8The Savoy Declaration of Faith and Order (1658), chap. XIX, art. I, II.
9. DWIGHT, T. (1823). Theology Explained and Defended, vol. III, 3th ed., New-Haven: Printed by S. Converse, ser. XCI, p. 59-60.
10The Apology of the Augsburg Confession, chap. I, art. II (Of Original Sin). In: JACOBS, H. E. (1911). The Book of Concord: The Symbolical Books on the Evangelical Lutheran Church, Philadelphia: The United Lutheran Press, p. 78.
11. KRAUTH, C. P. (1872). The Conservative Reformation and its Theology: As Represented in the Augsburg Confesssion, and in the History and Literature of the Evangelical Lutheran Church, Philadelphia: Printed by J. B. Lippincott & Co., art. IX (Original Sin), p. 377.
12. LOCHMAN, J. G. (1818). The History, Doctrine and Discipline of the Evangelical Lutheran Church, Harrisburgh: Printed by John Wyeth, art. II, p. 87.
13. DREW, S. (1829). Sermons on Several Occasions by the Rev. John Wesley, vol. I, London: Printed by Thomas Tegg, ser. XXVII, disc. V, p. 276-277.
14. SMITHSON, W. T. (1859). The Methodist Pulpit South, 3th ed., Washington, D.C.: Printed by Henry Polkinhorn, p. 164-165; ("The Perfect Law of Liberty").
15. WESLEY, J. (1828). The Miscellaneous Works of the Rev. John Wesley, vol. II, New York: Printed by J. Harper, part. VII (The Doctrine of Original sin), p. 353.
16The Westminster Confession of Faith (1647), chapter XIX, art. I, II.
17The Constitution of the Cumberland Presbyterian Church in the United States of America. (1843). Pittsburgh: Printed by Arthur A. Anderson, p. 83, 87-88.
18. PARK, E. A.; TAYLOR, S. H. (1863). Bibliotheca Sacra and Biblical Repository, vol. XX, London: Printed by Thübner & Co., art. III, p. 579.
19The Second Helvetic Confession, chap. VIII: Of Man's Fall, Sin and the Cause of Sin; (esta confissão de fé foi escrita em 1562 por Heinrich Bullinger, sendo publicada posteriormente na cidade de Zurique em 1566 por Frederico III da Palatina e, adotada também pelas igrejas Reformadas da Suíça, França, Holanda, Escócia, Hungria, Polônia e Inglaterra).


sábado, 10 de maio de 2014

O Decálogo no Éden

Muitos acreditam que os Dez Mandamentos surgiram quando Moisés os recebeu no monte Sinai, sendo até então desconhecidos. Outros creem que eles foram destinados aos judeus e não precisam ser obedecidos pelos gentios. E um terceiro engano afirma que Jesus os substituiu por "dois novos" mandamentos. Estas noções absurdas contrariam fortemente os ensinos da Bíblia, e Deus aniquila pessoalmente a primeira ilusão citada ao declarar:
"Porque Eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo. [...] Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da Terra; porque Abraão obedeceu à Minha palavra e guardou os Meus mandados, os Meus preceitos, os Meus estatutos e as Minhas leis." (Gênesis 18:19 RAGênesis 26:4-5 RA).

Estes versos afirmam que Abraão seguiu e foi escolhido para ensinar a conduta de vida estabelecida por Deus. Mas antes deste testemunho, Deus tinha feito a ele a seguinte recomendação: "[...] guarde a Minha aliança, tanto você como os seus futuros descendentes." (Gênesis 17:9 NVI). Neste ponto, surgi a pergunta: Os descendentes de Abraão foram igualmente zelosos com a aliança instituída por Deus, obedecendo aos Seus preceitos, estatutos e leis? Vejamos:
"Então, disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover do céu pão, e o povo sairá e colherá diariamente a porção para cada dia, para que Eu ponha à prova se anda na Minha lei ou não.
Dar-se-á que, ao sexto dia, prepararão o que colherem; e será o dobro do que colhem cada dia. [...] Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele, não haverá.
Ao sétimo dia, saíram alguns do povo para o colher, porém não o acharam. Então, disse o Senhor a Moisés: 'Até quando recusareis guardar os Meus mandamentos e as Minhas leis?'" (Êxodo capítulo 16RA).
Isso ocorreu no deserto de Sim, antes que os descendentes de Abraão chegassem ao deserto do Sinai, onde receberam os Dez Mandamentos na sua forma escrita (em duas tábuas de pedra) após firmarem com o Senhor o pacto de aliança (Êxodo 16:1Êxodo 19:1-8). Sendo assim, como poderia Deus pôr os israelitas à prova em relação ao sábado do quarto mandamento, se eles ainda iriam recebê-lo no monte Sinai? E por que os reprovou questionando: "Até quando recusareis guardar os Meus mandamentos e as Minhas leis?" (Êxodo 16:28).

O uso da locução adverbial "até quando", que provém do hebraico "'anah"(a), e o uso dos substantivos "mandamentos" e "leis", que são respectivamente traduções do hebraico "mitsvah"(b) e "towrah"(c), demonstram que os israelitas conheciam tanto a observância sabática quanto outras instruções divinas, e vinham a muito tempo negligenciando-as. Deus jamais teria testado-os naquela ocasião se eles não conhecessem os Seus preceitos, isso seria injusto. Através de Abraão eles receberam as orientações divinas transmitidas desde a época de Adão.

A lei de Deus no Éden
Adão e Eva transgrediram no Éden os princípios da lei de Deus quando cederam aos sofismas de Satanás, eles conscientemente desprezaram a justiça que lhes foi ensinada. Nesta infeliz atitude, eles escolheram seguir uma criatura e consideraram as palavras do Deus Criador falsas; desonraram Aquele que lhes concedera a vida; cobiçaram e furtaram; sentenciaram à morte gerações, pois ao perderem o direito à vida eterna tal condição foi repassada aos seus descendentes; e, se estes fatos ocorreram no sétimo dia da semana, pode-se afirmar ainda que tais transgressões ofenderam a Deus no Seu santo sábado.

Antes desse fatídico dia, Adão e Eva não conheciam os resultados do pecado: "eis que o homem se tornou como um de nós conhecedor do bem e do mal [...]" (Gênesis 3:22 RA cf. Romanos 7:7). Eles viviam em perfeita harmonia com Deus e, dia-a-dia, aprendiam sobre o Seu amor sintetizado em Sua lei (cf. Romanos 13:10). A respeito dessas transgressões a Bíblia revela:
"Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. [E] o salário do pecado é a morte." (Romanos 5:12-13 RAI João 3:4 RARomanos 6:23 RA).
"Adão e Eva persuadiram-se de que seria questão insignificante o comer do fruto proibido, e que tal ato não poderia resultar em terríveis consequências como as de que Deus os avisara. Mas essa questão insignificante constituía uma transgressão da imutável e santa lei divina, e separou o homem de Deus, abrindo os diques da morte e trazendo sobre o mundo misérias indizíveis. Século após século tem subido da Terra um contínuo grito de lamento, e toda criação geme aflita, em resultado da desobediência do homem. O próprio Céu sentiu os efeitos da rebelião de Satanás contra Deus. O Calvário aí está como um monumento do estupendo sacrifício exigido para expiar a transgressão da lei divina. Não podemos considerar o pecado coisa trivial."1

"Depois da desobediência, Adão e Eva a princípio imaginaram-se ter obtido uma condição mais elevada de existência. Mas logo o pensamento de seus pecados os encheram de terror. Desapareceram o amor e a paz que haviam desfrutado, e em seu lugar experimentavam uma intuição de pecado, um terror pelo futuro. A veste de luz que os rodeara, desapareceu; e para suprir sua falta procuraram fazer para si uma cobertura, pois enquanto estivessem nus, não podiam enfrentar o olhar de Deus e dos santos anjos. Mas a nudez era mais do que física, era também uma nudez de alma."2

Outros exemplos bíblicos demonstram a existência da lei de Deus (Decálogo) antes de ser entregue no monte Sinai, tais como: o assassinato de Abel (Gênesis 4:8); promiscuidade e idolatria de vários povos da antiguidade, como de Sodoma e Gomorra (Gênesis 18:20Gênesis 19:4-5 cf. Romanos 1:18-32); Abrão antes de se tornar Abraão ocultou o seu real parentesco com Sara (Gênesis 12:10-20); José resistiu ao pecado de adultério (Gênesis 39:7-23); enfim, estes atos não poderiam ser classificados e condenados como pecaminosos se a lei de Deus não existisse anteriormente para denunciá-los (I João 3:4Romanos 4:15), pois "o pecado não é levado em conta quando não existe lei." (Romanos 5:13 NVI). "[...] De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da Lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a Lei não dissesse: 'Não cobiçarás'." (Romanos 7:7 NVI). Sem a lei, por exemplo, Sodoma e Gomorra teriam sido injustamente condenadas a destruição (II Pedro 2:6 cf. Romanos 1:18).

A lei sob ataque no Céu
Lúcifer quando cobiçou o trono de Deus, ele transgrediu o princípio do décimo mandamento, e tal atitude levou-o posteriormente a violar os demais preceitos da lei.3 E aquilo que ele não conseguiu no Céu(d), esforça-se a todo custo para obter na Terra: adoração e domínio absolutos. Para isso ele utiliza o mesmo artifício, tornar a lei desprezível(e); e entende perfeitamente que para atingir este objetivo não há necessidade de proporcionar a transgressão de cada um dos Dez Mandamentos:
"Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, Aquele que disse: 'Não adulterarás', também ordenou: 'Não matarás'. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade." (Tiago 2:10-12 RA cf. I João 2:1-4).
As Escrituras não favorecem ideologias contrárias à lei de Deus, agir contra ela é auxiliar Satanás em seus propósitos. E eis os "motivos" que o conduz a combatê-la:
Deus é amor (I João 4:8), a base da lei é o amor (Romanos 13:8-10Mateus 22:37-40).
Deus é santo, justo e bom (Salmos 99:5Marcos 10:18Salmos 7:11), Sua lei é santa, justa e boa (Romanos 7:12).
Deus é eterno (I Timóteo 1:17), Sua lei é eterna (Lucas 16:17 cf. Isaías 24:5-6).
Deus é imutável (Tiago 1:17 cf. Malaquias 3:6), Sua lei é imutável (Mateus 5:17-19).
Deus é a verdade (João 14:6Salmos 31:5), Sua lei é a verdade (Salmos 119:142).
Alinhadas acima características inerentes a Deus e atribuídas também a Sua lei, visto que: os seus mandamentos descrevem o próprio caráter do Legislador e revelam o zelo dEle por Suas criaturas. A lei é a base do governo de Deus e, por seu intermédio, haverá o devido julgamento da humanidade(f). Não é de admirar o colossal esforço de Satanás para ocultá-la da mente do homem.4

Fundamentos do Decálogo
"Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas." (Mateus 22:37-40 RAMarcos 12:30:31).
Através de falsas interpretações destes versos, existe o esforço em substituir o Decálogo pelos dois mandamentos citados por Jesus. Porém, sem dificuldade alguma, percebe-se a leviandade nesta tentativa uma vez que os versos de Mateus 22:37-40 são na realidade a resposta para a pergunta: "Mestre, qual é o grande mandamento na lei?"(g) (Mateus 22:36 RA). Neste questionamento não se faz qualquer alusão sobre a substituição da lei, tanto a pergunta quanto a resposta estão envolvidas em destacar o mandamento de maior importância pertencente à ela.

Na expectativa de constranger Jesus, os fariseus interrogaram-No a respeito dos mandamentos contidos na lei mosaica e esperavam que Ele indicasse algum que não satisfizesse a pergunta. Mas, se decepcionaram ao receberem como resposta os dois mandamentos que retêm os princípios bases de toda a lei: amor a Deus, e amor ao próximo. A lei mosaica em sua totalidade esta alicerçada sobre estes fundamentos e Jesus simplesmente assinala o que já era ensinado pela própria lei: "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. [...] amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Deuteronômio 6:5Levítico 19:18 RA). Ao contrário do que muitos imaginam, a resposta de Jesus não era algo novo ou exclusivo do Novo Testamento, como se pode observar nestes versos(h). E João chama atenção para isso ao dizer: "[...] peço-te, não como se escrevesse mandamento novo, senão o que tivemos desde o princípio: que nos amemos uns aos outros." (II João 1:5).

O apóstolo Paulo também refere-se a estes alicerces ou fundamentos da lei: "[...] não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor." (Romanos 13:9-10 RA). Nota-se ainda que Paulo exemplifica este assunto citando exclusivamente os mandamentos do Decálogo, os quais além de estarem fundamentados no princípio do amor, são a base da lei mosaica(i). O amor a Deus sempre estará sintetizado na obediência aos quatro primeiros mandamentos do Decálogo, assim como o amor ao próximo desenvolverá a dedicação aos seis últimos.

Considerações Finais
A Bíblia revela claramente a existência da lei de Deus (Decálogo) antes da criação do homem e, consequentemente, antes de Moisés. Ela foi estabelecida na Terra para toda a humanidade (Eclesiastes 12:13cf. Mateus 19:17-19). Os descendentes de Abraão, quando foram convocados por Deus para levarem os Seus ensinos às demais nações (Êxodo 19:5-6Isaías 51:4Romanos 3:2), já tinham o conhecimento desta lei antes de ser entregue na sua forma escrita no monte Sinai.

Deus não é um Criador e Governador de improviso, que realiza Seus propósitos sem planejamento. Ele não elabora regras conforme o surgimento das circunstâncias. E tais afirmativas são confirmadas pelas seguintes declarações: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!", "[...] Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo" (João 1:29 RAApocalipse 13:8 RA). Este sacrifício único e derradeiro foi providenciado justamente pelos pecados do homem, pecados que segundo os ensinos escriturísticos são ocasionados pela desobediência aos princípios do Decálogo.5

O plano de salvação foi minuciosamente articulado antes da criação. Deus tinha conhecimento das transgressões que o homem causaria à Sua lei influenciado por Satanás (cf. Apocalipse 12:17João 8:44). O "fruto" de uma árvore, obviamente, não foi a causa do grande conflito em que a humanidade se envolveu. As implicações registradas em Gênesis capítulo 3 vão muito além disso.


Vídeos relacionados: Os Dez Mandamentos
a'Anah relativo a tempo significa: quando?, quanto tempo?, até quando?
bMitsvah significa: mandamento, preceito, regra; coletivamente formam uma lei.
cTowrah significa: instrução; orientação; conjunto de ensinos proféticos; lei deuteronômica ou mosaica; leis específicas, códigos específicos, por exemplo: lei de ofertas queimadas e o Decálogo.
d. Acesse: A Origem do Mal
g. A palavra "lei" em Mateus 22:36 origina-se do grego "nomos", e no contexto da questão refere-se a lei de Moisés, ao conjunto de mandamentos da Torah.
h. A crença de que o preceito, "amarás o teu próximo como a ti mesmo", originou-se com o Novo Testamento, ocorre pelo desconhecimento de Levítico 19:18, e pela interpretação equivocada das seguintes palavras de Jesus: "Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei [...]" (João 13:34 RA). Jesus não afirmou que este preceito era "novo" no sentido de "inédito" ou "recém estabelecido", mas, que era novo para aqueles que o ouviram na ocasião, pois eles desconheciam o mandamento anunciado. No idioma grego, a palavra "novo", pode ser escrita de duas formas: "neos" (quando algo é novo no sentido de: tempo recente; jovem; recém originado; que surgiu a pouco tempo), e "kainos" (quando algo é novo no sentido de: antes desconhecido; incomum; anteriormente ignorado; recém revelado). E João 13:34 utiliza a palavra "kainos", identificando que o mandamento já existia, porém, era desconhecido para os ouvintes de Jesus. Outros exemplos que utilizam o adjetivo "kainos": "Todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si: 'Que vem a ser isto? Uma nova [kainos] doutrina!' [...]" (Marcos 1:27 RA); "Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em Meu nome, expelirão demônios; falarão novas [kainos] línguas." (Marcos 16:17 RA).
i. Acesse: Lei de Deus & Lei de Moisés (em: Preceitos temporários e perpétuos).
1. WHITE, E. G. Caminho a Cristo, São Paulo: CPB, cap. 3, p. 33.
2. WHITE, E. G. Patriarcas e Profetas, São Paulo: CPB, sec. I, cap. 3, p. 57.
3. Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-17 cf. João 8:44; Apocalipse 12:7-12.
4. Hebreus 8:10-12; Hebreus 10:15-17 cf. Jeremias 31:33-34; Isaías 8:16.
5. Hebreus 10:12-13; I João 3:4; Romanos 4:15; Romanos 7:7.

sábado, 3 de maio de 2014

Lei Moral & Lei Cerimonial

Embora a Bíblia apresente um conjunto de leis interligadas e indique os seus respectivos propósitos, há aqueles que preferem se distanciar desta realidade e argumentar que elas não possuem valor algum para o cristianismo; comumente sustentam a crença popular de que a palavra "lei" (nas Escrituras) representa algo impossível de ser obedecido, obsoleto, maldito e abolido na cruz do Calvário. Na realidade, o objetivo destas ilusórias ideias é tão somente eliminar o dever exigido por Deus e proporcionar comodidade religiosa, onde cada indivíduo mantém suas convicções particulares livres de qualquer interferência dEle.

A maioria dos professos cristãos possuem ainda o seguinte comportamento: quando uma determinada lei estabelece padrões de conduta que se opõem às suas tradições e estilos de vida particular, ela é considerada: ultrapassada, cancelada por Cristo ou, válida somente para os judeus. Mas, se esta mesma lei contém direitos e bênçãos concedidos pela sua obediência, os mesmos cristãos que a rejeitam, reivindicam os privilégios afirmando que as bênçãos vinculadas à lei (menosprezada por eles) pertencem aos gentios e judeus. Em resumo, os oportunistas acreditam que não possuem obrigação alguma com a lei em questão, mas são merecedores de receber os benefícios atrelados à ela.

Apesar desta atitude interesseira ter se alastrado fortemente, existe várias obras literárias que combatem as fábulas atribuídas ao sistema legislativo da Bíblia. Este sistema, nas Escrituras, é chamado de lei de Moisés(a)(Torah). E por abranger um amplo e diversificado conjunto de leis (com seus respectivos mandamentos, ordenanças, estatutos e juízos), a lei de Moisés foi divida didaticamente em três partes:
  1. Lei Moral: para distinguir o grupo de mandamentos vigentes e válidos à toda humanidade.
  2. Lei Cerimonial: para indicar o regimento vinculado ao sistema litúrgico da antiga aliança que foram cumpridos e, consequentemente, revogados.
  3. Lei Civil ou Judicial: para determinar os preceitos e as jurisprudências que guiaram as questões administrativas e jurídicas do antigo Estado de Israel.
Sendo assim, analisemos alguns ensinos denominacionais que defendem esta divisão e, combatem as deturpadas e grosseiras ideias populares quanto ao termo "lei" utilizado pela Bíblia.

Igreja Anglicana

"Portanto, as leis entregues pelo próprio Deus, com todos esses preparativos solenes(b), e de uma forma tão peculiar planejada para causar reverência e incentivar a obediência, eram de três tipos: morais,cerimoniais e civis. A lei Moral, que é composta pelos Dez Mandamentos, "escrita pelo dedo de Deus", e a lei Natural, como é conhecida, são, em todos os pontos essenciais, a mesma. (...) Essa lei Moral, fundamentada no vínculo natural subsistente entre Deus e o homem, sendo originalmente declarada a Adão, seja por meio de sua razão, ou por alguma impressão sensível em sua mente, ou pela voz audível do próprio Deus, é de obrigação universal e eterna.
(...) A lei Cerimonial ou lei Positiva refere-se aos sacerdotes, ao tabernáculo, aos sacrifícios e demais serviços e ritos religiosos. (...) Os principais objetivos da lei Cerimonial eram preservar os judeus da idolatria, na qual todas as nações vizinhas dedicavam-se, e manter em suas mentes a necessidade de expiação pelo pecado. A lei Civil refere-se ao governo civil dos israelitas; as penalidades, casamentos, propriedades e bens."1

Igreja Assembleia de Deus
"Se Jesus não veio abolir a lei, todas as leis do AT [Antigo Testamento] ainda se aplicam a nós hoje? É preciso lembrar que havia três categorias de leis: a cerimonial, a civil e a moral.
(1) A lei Cerimonial diz respeito especificamente à adoração por parte de Israel (ver Lv 1.2,3). Seu propósito primário era apontar adiante, para Cristo, portanto, não seria mais necessária depois da morte e ressurreição de Jesus. Mesmo não estando mais ligados à lei Cerimonial, os princípios que constituem a base da adoração - amar e adorar ao Deus Santo - ainda se aplicam. Jesus foi frequentemente acusado pelos fariseus de violar a lei Cerimonial.
(2) A lei Civil se aplicava à vida cotidiana em Israel (ver Dt 24.10,11). Pelo fato de a sociedade e a cultura modernas serem tão radicalmente diferentes das daquele tempo, esse código como um todo não pode ser seguido. Mas os princípios éticos contidos nos mandamentos são atemporais, e devem guiar nossa conduta. Jesus demonstrou estes princípios por meio de Sua vida exemplar.
(3) A lei Moral (como os Dez Mandamentos) é a ordem direta de Deus, exige uma obediência total, pois revela Sua natureza e vontade. Assim, ainda é aplicável em nossos dias. Jesus obedeceu completamente à lei Moral."2
"Estas leis, dadas a Moisés no monte Sinai, eram o fundamento da vida civilmoral e cerimonial da nação (Êx 20;Dt 4.5,6). Ainda devemos considerar as leis morais porque elas são aplicáveis a todas as gerações."3
"A lei Mosaica (hb. torah, que significa 'ensino'), admite uma tríplice divisão: (a) a lei Moral, que trata das regras determinadas por Deus para um santo viver (Êx 20.1-17); (b) a lei Civil, que trata da vida jurídica e social de Israel como nação; e (c) a lei Cerimonial, que trata da forma e do ritual da adoração ao Senhor por Israel, inclusive o sistema sacrifical."4

Igreja Batista
"A lei pode ser dividida em três tipos: cerimonialcivil e moral. Como Israel não distingue entre as instituições políticas e religiosas, a lei Civil estava mesclada com a lei Religiosa [lei Cerimonial]. O livro de Levítico está interessado principalmente com as leis cerimoniais relativas ao sacerdócio, mas algumas partes são a base para a lei Civil (por exemplo, Levítico 18 e posteriores). As leis civis e morais do Antigo Testamento são a base para as leis de muitos países. Várias leis ainda têm valor como fonte de princípios jurídicos, mas devem possuir novas formas de expressar os princípios, pois os modelos sociais e políticos mudaram.
De acordo com o livro de Hebreus, as leis cerimoniais eram sombras de Cristo. A sombra foi substituída pela realidade de Cristo e Seu ato redentor. As leis cerimoniais foram cumpridas; portanto a igreja não observa as festas e as leis sacrificais. Principalmente as leis cerimoniais que foram aplicadas à Cristo através da tipologia. (...)
Cristo não substituiu a lei, mas a conduziu ao seu cumprimento. A lei Moral continua sendo obrigatória, porém Cristo deu um novo nível de importância e aplicação. Ele trata com a raiz das faculdades éticas, incluindo atitudes e motivos (do coração humano). A ênfase da conduta cristã transcendeu os atos externos, para os motivos por trás desses atos. Paulo rejeitou a interpretação legalista da lei, mas não a própria lei. Ele, como Jesus, observou que a lei deve ser interpretada para aplica-la ao coração do homem."5
"A mesma lei que foi escrita no coração do homem, continuou a ser uma perfeita regra de justiça após a queda, e foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos escritos em duas tábuas, os quatros primeiros contendo nosso dever para com Deus, e os outros seis o nosso dever para com o homem.
Além desta lei, comumente chamada de lei Moral, Deus houve por bem dar leis cerimoniais ao povo de Israel contendo diversas ordenanças simbólicas; em parte sobre adoração, prefigurando a Cristo, Sua graça, Suas ações, Seus sofrimentos e caridades; e, sob certo aspecto, fixando diversas instruções de deveres morais. Tudo o que as leis cerimoniais determinaram, prevaleceram até o tempo de reforma, até Jesus Cristo, o verdadeiro Messias e único Legislador; que foi provido com o poder do Pai para esta finalidade, cumprir e revogá-las. Para eles igualmente, Deus entregou diversas leis judiciais, que expiraram juntamente com aquela nação e agora não possuem caráter obrigatório; são válidas, no entanto, como um padrão moral de equidade coletiva."6

Igreja Congregacional
"A lei dos israelitas, tanto Civil e Cerimonial, é distinta do Decálogo, neste grande particular, o que foi escrito por Moisés em um livro, foi primeiramente dito pela voz de Deus, e depois duas vezes escrito por Seu dedo em tábuas de pedra, em meio a todos os esplendores terríveis no monte Sinai."7
Savoy Declaration of Faith and Order (1658),8 é uma confissão de fé adotada pela igreja Congregacional e origina-se da Westminster Confession of Faith (de base calvinista e utilizada pela igreja Presbiteriana). O capítulo 19 destas confissões apresentam integralmente o mesmo conteúdo e defendem as distinções de mandamentos: morais, cerimoniais e civis. Portanto, para evitar repetições desnecessárias, consulte adiante o posicionamento da igreja Presbiteriana.

Igreja Luterana
"A lei, na qual Deus, por orientação e proibição, fez conhecer a Sua vontade aos homens e o dever que Ele tem exigido deles, é, de acordo com a sua mais ampla dimensão, parte universal e aplicável a todas as épocas; e em parte entregue para um determinado período e sob certas circunstâncias. A primeira é chamada de lei Moral, na medida que contém os preceitos de Deus relacionados a nossa conduta moral, permanecem para sempre inalterados e dizem respeito a todas as criaturas racionais. A segunda [parte] é chamada lei Cerimonial e Judicial, ao passo que contêm os preceitos cerimoniais e civis que foram destinados aos judeus durante o período da teocracia judaica."9
"A lei dada através de Moisés representa não somente a forma invariável da lei Natural, como o Decálogo, mas também, baseada nesta, oferece leis variáveis de culto e de administração civil. Por essa razão, catalogou-se a lei de Moisés em: lei Morallei Cerimonial e lei Civil. (...)
As leis cerimoniais serviam à lei Moral, mas se cumpriram em Jesus Cristo, o Messias. Eram apenas sombras que antecipavam a vinda do Messias. O que permanece é o Decálogo, a lei Moral. (...) O Decálogo é invariável porque concorda coma lei Natural invariável dada por Deus à humanidade. Na realidade, essa lei é basicamente um documento de liberdade."10

Igreja Metodista
"Lei Cerimonial é aquela que prescreveu os ritos religiosos praticados durante o Antigo Testamento. Estes ritos eram simbologias de Cristo, findadas com a obra dEle e início da fundação de Sua igreja evangélica(c). A lei Judicial foi aquela que direcionou a política da nação judaica, enquanto durou o peculiar domínio de Deus como Supremo magistrado dela. (...)
Lei Moral é aquela declaração da vontade de Deus que direciona e vincula todos os homens, em cada época e lugar, ao completo dever para com Ele. Foi a mais solenemente proclamada pelo próprio Deus no Sinai, para confirmar a original lei Natural e repreender os erros dos homens em relação às exigências dela. É denominada perfeita, Sal. 19:7; perpétua, Mat. 5:17-18; santa, Rom. 7:12; boa, Rom. 7:12; espiritual, Rom. 7:14; ilimitada, Sal. 119:96. Alguns negam que ela seja a regra de conduta para os crentes sob a dispensação do evangelho; embora seja fácil perceber a inutilidade de tal ideia; pois, como uma transcrição da vontade de Deus, ela deve ser o padrão dos bons e maus costumes."11
"A lei Cerimonial ou Ritual entregue por Moisés aos filhos de Israel, contendo todas as injunções e ordenanças relacionadas aos antigos sacrifícios e serviços do templo, nosso Senhor certamente veio invalidar, suprimir, rescindir completamente. (...) Porém a lei Moral, constituída pelos Dez Mandamentos e ministrada pelos profetas, Ele não removeu. Não foi o objetivo de Sua vinda, revogar qualquer parte dela. Esta é uma lei que jamais pode ser inutilizada; que 'permanece firme como uma testemunha fiel no Céu'(d).
A [lei] Moral encontra-se sobre uma base totalmente diferente da Cerimonial, lei Ritual, a qual foi estabelecida apenas para uma restrição temporária de um povo rebelde e de dura cerviz; enquanto essa [lei Moral] surgiu desde o princípio do mundo, sendo 'escrita não em tábuas de pedra', mas no coração de todos os filhos dos homens, quando saíram das mãos do Criador. No entanto, as letras outrora escritas pelo dedo de Deus, são hoje em grande medida desfiguradas pelo pecado; por hora elas não podem ser completamente eliminadas, enquanto tivermos alguma consciência do bem e do mal. Cada parte da lei deve permanecer em vigor, a toda humanidade, em todas as épocas; independente de tempo ou lugar, ou quaisquer outras circunstâncias passíveis de transformações. (...)"12

Igreja Presbiteriana
I. Deus entregou a Adão uma lei, como um pacto de obras, pela qual Ele o submeteu e toda sua posteridade, a uma obediência perpétua, pessoal, completa e perfeita; prometeu vida sob a condição de cumprir e ameaçou de morte em caso de violar a mesma, e dotou-lhe com poder e capacidade para guardá-la.
II. Essa lei, após sua queda, continuou a ser uma perfeita regra de justiça; e, como tal, foi entregue por Deus no monte Sinai, em Dez Mandamentos, escritos em duas tábuas: os primeiros quatro mandamentos contêm o nosso dever para com Deus; e os outros seis, o nosso dever para com o homem.
III. Além desta lei, comumente chamada [lei] Moral, Deus houve por bem entregar ao povo de Israel, como uma igreja jovem, leis cerimoniais, contendo diversas ordenanças simbólicas; em parte sobre adoração, prefigurando a Cristo, Sua graça, Suas ações, Seus sofrimentos e caridades; e, sob certo aspecto, fixando diversas instruções de deveres morais. Todas as leis que são cerimoniais estão revogadas, sob o Novo Testamento.
IV. Para eles igualmente, como um corpo político, Ele entregou diversas leis judiciais, que extinguiram com o Estado daquela nação; sem qualquer obrigação atual, exceto a exigência de sua equidade coletiva.
V. A lei Moral submete sempre a todos, tanto as pessoas justificadas como as demais, a obedecê-la; e isso, não somente quanto à matéria contida nela, mas também pelo respeito à autoridade de Deus, o Criador, que a entregou. Nem Cristo, no evangelho, de modo algum anula esta obrigação, antes a fortalece.13
"As leis dos judeus são comumente divididas em MoralCerimonial e Judicial. As leis morais são semelhantes quanto ao surgimento natural das coisas, as quais não podem, por consequência, serem alteradas; como o dever de amar a Deus e Suas criaturas. (...) Nesta espécie estão os Dez Mandamentos; estes, nosso Salvador tampouco os têm abolidos ou substituídos. As leis cerimoniais são aquelas designadas para satisfazer determinadas situações da sociedade, ou, para regulamentar os ritos e cerimônias religiosas de um povo. Estas podem ser alteradas quando as circunstâncias mudam, todavia a lei Moral é intocável. (...) Uma terceira espécie de lei era a Judicial, ou, aquelas que regulam os tribunais de justiça contidos no Antigo Testamento. Essas tinham a natureza da lei Cerimonial, e igualmente podem ser modificadas sem restrições."14

Igrejas Reformadas
"Ensinamos que a vontade de Deus é esclarecida para nós na lei de Deus; o que Ele quer ou não que façamos, o que é bom e justo, ou, o que é mau e injusto. Portanto, confessamos que a lei é boa e santa. Esta lei foi escrita simultaneamente no coração dos homens pelo dedo de Deus (Rm 2:15), e é chamada a lei Natural; foi também esculpida pelo dedo de Deus nas duas tábuas de Moisés e eloquentemente exposta nos livros de Moisés (Êx 20:1 ssDeut 5:6 ss). Por motivo de esclarecimento distinguimos a lei Moral que contém o Decálogo ou as duas Tábuas, e, dispostas nos livros de Moisés a lei Cerimonial, que determina as cerimônias e adoração de Deus, e a lei Judicial, que diz respeito as questões políticas e domésticas.
Acreditamos que toda a vontade de Deus e todos os preceitos necessários para cada âmbito da vida são ensinados nesta lei. Caso contrário o Senhor não teria nos proibido de adicionar ou retirar algo desta lei; Ele tampouco teria nos ordenado a andar num caminho reto perante esta lei e, não se revolver dela, desviando para a direita ou para a esquerda (Dt 4:212:32)."15

Outras Referências
"(...) Em geral, a lei é dividida em três partes: a moral, a cerimonial e a judicial. Os Dez Mandamentos tratam da parte moral (Êx 34:28). Os juízos começam em Êxodo 21:2 e incluem uma lista de várias responsabilidades, além do juízo para os ofensores. A parte cerimonial começa em Êxodo 25:1 e serve como regulamento da vida de adoração de Israel."16
"(...) Inúmeros mestres da Bíblia já destacaram a diferença entre as categorias mais importantes da lei do Antigo Testamento. Primeiro, temos as leis civis e cerimoniais, que se aplicavam apenas à nação de Israel. Foram especificamente revogadas no Novo Testamento(e). Segundo, havia mandamentos que constituíam a lei Moral, que não era limitada a determinado tempo ou lugar."17


b. Referindo-se aos preparativos e fenômenos ocorridos no monte Sinai (Êxodo capítulo 19 cf. Êxodo 20:18-19).
c. Referências citadas pelo autor: Hebreus 7:9-11; Hebreus 10:1; Efésios 2:16; Colossenses 2:14; Gálatas 5:2-3.
d. Em referência a Salmos 119:89 (cf. Êxodo 34:28, Apocalipse 11:19).
e. Referências citadas pelos autores: Marcos 7:19; Efésios 2:15; Hebreus 7:18; Hebreus 8:13; Hebreus 10:8-10.
1. PRETYMAN, G. (1815). Elements of Christian Theology, 11.ª ed., vol. I, London: Luke Hansard & Sons, part I, chap. III, p. 180-182.
2Bíblia de Estudos Aplicação Pessoal. (2004). Rio de Janeiro: CPAD, p. 1224; (comentários sobre Mateus 5:17-20).
3Ibidem, p. 1025; (comentários sobre Malaquias 4:4).
4Bíblia de Estudo Pentecostal. (2002). Rio de Janeiro: CPAD; (nota adicional sobre Mateus 5:17: "A Lei do Antigo Testamento").
5. VIERTEL, W. E. (1985). La Biblia y su Interpretacion, 2.ª ed., ed. Casa Bautista de Publicaciones, leccion 5, p. 171.
6The 1677/89 London Baptist Confession of Faith, chap. XIX, art. II, III and IV.
7. DWIGHT, T. (1819). Theology Explained and Defended, vol. III, New-Haven: Printed and Published by S. Converse, ser. CVII, p. 256.
8The Savoy Declaration of Faith and Order (1658), chap. XIX, art. I-V.
9. SCHIMD, H. (1899). The Doctrinal Theology of the Evangelical Lutheran Church, 4.ª ed., Philadelphia: Lutheran Publication Society, part IV, chap. I, p. 508-509; (verificada a partir de fontes originais de Heinrich Schmid, e traduzida do alemão e latim por Charles Hay e Henry Jacobs).
10. WARTH, M. C. (2002). A Ética de Cada Dia, 1.ª ed., Canoas: Editora ULBRA, p. 41.
11. BUCK, C. (1851). Theological Dictionary, Woodward's New Edition, Philadelphia: Published by Crissy & Markley, p. 299a.
12. DREW, S. (1829). Sermons on Several Occasions by the Rev. John Wesley, 10.ª ed., vol. I, London: Thomas Tegg, ser. XXVII, disc. V, p. 276-277.
13The Westminster Confession of Faith (1647), chapter XIX, art. I-V.
14. BARNES, A. (1835). Notes, Explanatory and Practical on the Gospels, 6.ª ed., vol. I, New York: Published by Leavitt, Lord & Co., chap. V, p. 55-56.
15The Second Helvetic Confession, chap. XII: Of the Law of God; (esta confissão de fé foi escrita em 1562 por Heinrich Bullinger, sendo publicada posteriormente na cidade de Zurique em 1566 por Frederico III da Palatina e, adotada também pelas igrejas Reformadas da Suíça, França, Holanda, Escócia, Hungria, Polônia e Inglaterra).
16. RYRIE, C. C. (2004). Teologia Básica: ao alcance de todos, 1.ª ed., São Paulo: Mundo Cristão, p. 350.
17. DAVIES, B.; RENTZEL, L. (2004). Restaurando a Identidade: uma nova liberdade para homens e mulheres, São Paulo: Mundo Cristão, p. 252.