sábado, 19 de julho de 2014

O Sábado no Novo Testamento

Vários pretextos, inclusive difamatórios, são usados na tentativa de evitar a observância sabática exigida pela lei de Deus, entre eles: "O quarto mandamento não encontra-se no Novo Testamento", "Jesus e Seus discípulos violaram o sábado", "Cristo aboliu o sábado na cruz do Calvário" e, "o sábado é destinado apenas aos judeus". Estas alegações além de serem destituídas de fundamento bíblico, classificam diretamente Jesus de pecador ao incrimina-Lo de transgressor da lei.1 Tais pretextos demonstram ainda a desobediência hostil daqueles que realmente transgridem a lei e procuram justificar o próprio desrespeito à ela através de levianas acusações.

A ingênua ideia de que o sábado não deve ser observado porque o quarto mandamento não foi transcrito para o Novo Testamento, deveria ser aplicada também aos seguintes preceitos: "Não terás outros deuses diante de Mim." (Êxodo 20:3 RA); "não farás para ti imagem de escultura (...) não as adorarás, nem lhes darás culto (...)" (Êxodo 20:4-6 RA); "não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão (...)" (Êxodo 20:7 RA). Estes três preceitos da lei de Deus também não foram transcritos para o Novo Testamento. Portanto, aqueles que sustentam a ideia citada, deveriam igualmente eliminá-los de suas vidas. Porém, será que tais pessoas procedem fielmente com o argumento que defendem?

O Novo Testamento não contém várias normas de conduta essenciais à vida cristã presentes no Velho Testamento, tais como aquelas encontradas em Levítico 18:6-24Levítico 19:28Deuteronômio 18:10-12Deuteronômio 22:5; e etc. No entanto, isso jamais foi justificativa para negligencia-las. O Novo Testamento não foi idealizado para ser uma cópia exata do Velho Testamento, mas, uma extensão de seus ensinos. Quando Jesus declarou: "Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de Mim" (João 5:39 RA), Ele referia-se ao Velho Testamento, pois o início da redação do Novo Testamento ocorreu 31 anos após a Sua ascensão ao Céu, sendo concluída 66 anos depois. Os primeiros cristãos, que eram judeus, tinham como fonte de aprendizado o Antigo Testamento e os ensinos transmitidos diretamente por Cristo, e nestes ensinos não existe absolutamente nada sobre a revogação do sábado.

Jesus e o sábado
Jesus ao mencionar a destruição de Jerusalém (que ocorreu aproximadamente 40 anos após a Sua ressurreição), alertou os Seus seguidores dizendo: "Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado." (Mateus 24:20 RA). Ora, se o quarto mandamento iria ser eliminado na cruz do Calvário, por que Jesus alertou quanto a sua observância em meio a um acontecimento futuro, ainda mais sobre condições extremamente severas? Por que os cristãos deveriam orar para que a fuga não ocorresse no sábado?

Porque o tumulto, o medo e o percurso de fuga previstos para acontecer durante a destruição de Jerusalém comprometeriam a santificação do dia de sábado, por isso os cristãos deveriam orar para que pudessem guardá-lo de acordo com as orientações de Deus. Cristo se preocupou também com a temporada fria e chuvosa do inverno, pois tais condições tornariam a escapatória ainda mais complicada ao intensificar: as dificuldades para atravessar o rio Jordão; as chances de contrair doenças e, o transtorno para encontrar alimentação e alojamento. Portanto, 40 anos após a ressurreição de Jesus, o sábado continuou tão sagrado como nos dias em que Ele proferiu as palavras de Mateus 24:20. E esta orientação em benefício da guarda do sábado faz parte do sermão ocorrido no monte das Oliveiras (Mateus capítulo 24), ocasião em que foram profetizados os últimos eventos deste mundo.

Jesus fez ainda a seguinte declaração em favor da observância sabática: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado." (Marcos 2:27-28 NVI). Jesus proferiu estas palavras após concluir a defensa de Seus discípulos que estavam sendo acusados de transgressores do sábado pelos fariseus. Em diversas ocasiões, Jesus, o Autor e Senhor do sábado (João 1:1-3), demonstrou os verdadeiros princípios que regem o comportamento nas horas sabáticas, desvencilhando-o das excessivas e errantes regras de meros mortais pecadores.

Os diversos requisitos dos fariseus para a observância do sábado se baseava no conceito de que, à vista de Deus, o sábado era mais importante do que o próprio homem. De acordo com o raciocínio desses cegos expositores da lei divina, o homem foi feito para o sábado. Muitos judeus conduziam-se mecanicamente(a) durante o sábado fundamentados em severas e insensatas tradições destituídas de qualquer sentido, e isso ocasionou inúmeros atritos com os ensinos de Jesus.2

Deus não criou o homem no sexto dia porque precisava que alguém guardasse o sábado que seria instituído no sétimo dia, mas o onisciente Criador sabia que o homem, especialmente após a entrada do pecado neste mundo, precisaria de um tempo especial para o seu crescimento moral e espiritual, que ele necessitaria de um tempo no qual os seus interesses diários fossem sobrepujados por uma consagração mais intensa ao Criador (Isaías 58:13-14 cf. Atos 16:13). E o sétimo dia da semana foi escolhido por Deus para suprir estas necessidades. O sábado foi designado para o bem-estar da humanidade, não como um objeto de tradições de homens (cf. Marcos 7:7-9).

Apesar disso, alguns na ânsia de se livrar a todo custo do sábado, alegam que em Marcos 2:27, Cristo referia-se apenas aos judeus. Contudo, o próprio verso em questão pulveriza este falso argumento ao utilizar a palavra "homem" proveniente do grego "anthropos"(b), e que abrange a homens, mulheres e crianças, isto é, inclui qualquer ser humano. Deve-se ressaltar ainda que o sábado foi estabelecido na semana da criação, muito tempo antes da existência dos judeus. Outro detalhe digno de nota, quando Marcos 2:27 é comparado com Isaías 56:2, observa-se que ambos comunicam o mesmo ensino: o sábado foi instituído para toda a humanidade, sem qualquer distinção (cf. Isaías 56:6-8Eclesiastes 12:16-14).

Durante a Sua jornada na Terra, Jesus não manifestou nenhum desrespeito ao quarto mandamento(c). Ele nunca Se defendeu das acusações rabínicas afirmando que o sábado iria ser anulado por Seu intermédio. Ele conviveu com Seus discípulos ainda por 40 dias logo após a Sua ressurreição, antes de subir ao Céu, e nada foi dito sobre a anulação do sábado, tampouco mencionou que as suas prerrogativas divinas haviam sido transferidas para o domingo(d).

Reuniões sabáticas no Novo Testamento3
O Novo Testamento contém várias referências que demonstram o ensino e a prática da observância sabática na vida de Cristo e de Seus discípulos, ao todo estão registradas 90 reuniões religiosas no sábado de acordo com o quarto mandamento. Adiante estas reuniões com seus respectivos comentários históricos.

"Ele [Jesus] foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era Seu costume. E levantou-Se para ler." (Lucas 4:16 NVI).
Local e Data: Nazaré, 28 d.C.
Número de Reuniões: 01
Histórico: Jesus participava dos serviços de adoração aos sábados pois este era o "Seu costume". Ele não procedia desta maneira por ser judeu, mas por fidelidade e amor aos mandamentos de Deus (João 15:10 cf. Lucas 16:17). Da mesma forma, a Sua participação nas reuniões sabáticas não era com o intuito de agradar outros judeus, visto que os desagradou bastante ao Se revelar como o Messias. Isso proporcionou inclusive a Sua expulsão da sinagoga e quase O atiraram ao precipício (Lucas 4:28-30 cf. Lucas 22:66-68). Jesus "veio para o que era Seu, mas os Seus não o receberam." (João 1:11 NVI cf.Isaías 53:3).

"Então Ele [Jesus] desceu a Cafarnaum, cidade da Galileia, e, no sábado, começou a ensinar o povo. Todos ficavam maravilhados com o Seu ensino, porque falava com autoridade. (...) E a Sua fama se espalhava por toda a região circunvizinha." (Lucas 4:31-37NVI cf. Marcos 1:21).
Local e Data: Cafarnaum, 28 d.C.
Número de Reuniões: 01
Histórico: Jesus dedicava exclusivamente o dia de sábado para ensinar as Escrituras e curar os enfermos. É inegável que nas horas sabáticas, Ele empregava o Seu tempo de forma preponderante para auxiliar as pessoas nas questões físicas e espirituais. Em momento algum os quatro Evangelhos descrevem Jesus desempenhando qualquer atividade secular aos sábados, como por exemplo, o ofício de carpinteiro (Marcos 6:3).

"Noutro sábado, Ele entrou na sinagoga e começou a ensinar; estava ali um homem cuja mão direita era atrofiada. Os fariseus e os mestres da lei estavam procurando um motivo para acusar Jesus; por isso O observavam atentamente, para ver se Ele iria curá-lo no sábado." (Lucas 6:6-7 NVI cf. Mateus 12:9-14Marcos 3:1-6).
Local e Data: Cafarnaum, 28 d.C.
Número de Reuniões: 01
Histórico: Jesus novamente, no sábado, é relatado ensinando as Sagradas Escrituras e proporcionando a cura física aos necessitados, demonstrando por meio de palavras e atitudes o contínuo trabalho de Deus em favor da humanidade (cf. João 5:15-17). O contexto de Lucas 6:6-7 descreve mais uma ocasião em que Jesus esclareceu ao povo o que é lícito se fazer aos sábados, constrangendo os fariseus que mantinham distorcidos ensinos sobre a observância sabática. E por causa de Seu proceder, "os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam procurando depoimentos contra Jesus, para que pudessem condená-Lo à morte, mas não encontravam nenhum. Muitos testemunharam falsamente contra Ele, mas as declarações deles não eram coerentes." (Marcos 14:55-56 NVI).

"Era o dia da Preparação, e estava para começar o sábado. As mulheres que haviam acompanhado Jesus desde a Galileia, seguiram José, e viram o sepulcro, e como o corpo de Jesus fora colocado nele. Em seguida, foram para casa e prepararam perfumes e especiarias aromáticas. E descansaram no sábado, em obediência ao mandamento." (Lucas 23:54-56 NVI).
Local e Data: Jerusalém, 31 d.C.
Número de Reuniões: 01
Histórico: O "dia da Preparação" que a Bíblia refere-se é a sexta-feira e, aproximava-se o pôr do sol que precede o sábado. As santas mulheres seguidoras de Cristo, inclusive a Sua mãe, respeitosamente guardaram o sábado em "obediência ao mandamento" (cf. Êxodo 20:8-11). Este foi o primeiro sábado após a crucificação de Jesus, o primeiro sábado da nova aliança. Apesar do sofrimento inigualável elas permaneceram fiéis ao mandamento da lei de Deus, obedeceram ao ensino e exemplo do Messias recém assassinado (Mateus 5:17-19Lucas 16:17 cf. Mateus 19:16-19). Esses acontecimentos ocorreram em 31 d.C., mas Lucas os registrou após 33 anos, em 64 d.C. Três décadas depois ele destaca esta observância sabática sem nenhuma palavra de advertência, nada foi dito quanto a revogação do sábado pelo sacrifício de Jesus na cruz do Calvário; não existe coisa alguma que favoreça a suposta mudança do sábado para o domingo(e). Todavia, centralizando o texto de Lucas 23:54-56 na presente temática deste estudo, é incontestável que a citada observância do sábado foi em obediência ao quarto mandamento do Decálogo.

"Quando Paulo e Barnabé estavam saindo da sinagoga, o povo os convidou a falar mais a respeito dessas coisas no sábado seguinte. Despedida a congregação, muitos dos judeus e estrangeiros piedosos convertidos ao judaísmo seguiram Paulo e Barnabé. Estes conversavam com eles, recomendando-lhes que continuassem na graça de Deus. No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. Quando os judeus viram a multidão, ficaram cheios de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo estava dizendo." (Atos 13:42-45 NVI).
Local e Data: Antioquia, 45 d.C.
Número de Reuniões: 02
Histórico: O evangelho foi ensinado em vários lugares pelos discípulos de Jesus, numerosas multidões ouviam a Palavra de Deus e cidades inteiras eram repreendidas e instruídas. Isso pode ser comprovado pela expressão "quase toda a cidade" (verso 44), que relata a presença de muitos gentios na ocasião em que Paulo e Barnabé pregavam em Antioquia, o que contrasta com os poucos judeus que se opuseram à mensagem (verso 45). E é evidente que a sinagoga onde ocorreu a reunião no "sábado anterior" (verso 42), não podia conter por motivo de espaço, a multidão reunida no "sábado seguinte" (verso 44). Isso obrigou os ouvintes a se acomodarem ao ar livre, enquanto os apóstolos falavam dentro da sinagoga. Estas duas reuniões sabáticas ocorreram 14 anos após a ressurreição de Jesus, e nenhuma mudança sobre o dia de repouso instituído no sétimo dia da semana é mencionada (Gênesis 2:1-3Êxodo 20:8-11). Interessante observar também a recomendação de Paulo, "continuem na graça de Deus" (verso 43), para aqueles que aceitaram a Cristo e, ao mesmo tempo guardavam o sábado do Decálogo, uma clara demonstração da harmonia entre a lei e a graça(f). Se houvesse algum conflito nesta questão os apóstolos prontamente os teriam instruídos, igualmente teriam deixado em seus escritos algo a este respeito para as futuras gerações da igreja.

"No sábado saímos da cidade e fomos para a beira do rio, onde esperávamos encontrar um lugar de oração. Sentamo-nos e começamos a conversar com as mulheres que haviam se reunido ali." (Atos 16:13 NVI).
Local e Data: Filipos, 53 d.C.
Número de Reuniões: 01
Histórico: Esta descrição bíblica anula simultaneamente três alegações dos opositores da observância sabática: "que o sábado é algo circunscrito ao território de Israel"; "que a observância sabática depende de uma sinagoga"; e, "que Paulo não guardava o sábado, mas utilizava este dia apenas para se reunir com os judeus". Estas três estapafúrdias mentiras são refutadas facilmente em Atos 16:13, pois este verso descreve Paulo, Silas, Timóteo e Lucas na cidade de Filipos, situada na Grécia mas na época sob jurisdição romana. Observando que esta cidade era desconhecida pelos apóstolos. Após alguns dias em Filipos, havia chegado o sábado, e prontamente eles buscaram uma sinagoga para realizar o culto a Deus, mas não encontraram. Porém, foram informados da existência de um lugar ao ar livre na orla do rio Gangites, onde poderiam realizar sua reunião sabática. Então, saíram da cidade ao encontro deste propício local para: estudar as Escrituras, louvar e orar ao Criador. Ali, eles encontraram algumas mulheres e pregaram o evangelho para elas. E Lídia, uma das presentes, após aceitar os ensinos transmitidos foi batizada (Atos 16:14-15). Assim, os discípulos de Jesus demonstraram um excelente exemplo de obediência ao quarto mandamento da lei de Deus.

"Tendo passado por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica. Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: 'Este Jesus que lhes proclamo é o Cristo'." (Atos 17:1-3 NVI).
Local e Data: Tessalônica, 53 d.C.
Número de Reuniões: 03
Histórico: Tessalônica, localizada na Grécia, foi capital da província romana de Macedônia e um importante centro de comércio que atraiu um número significativo de judeus. Estes desfrutavam de liberdade religiosa e puderam construir seu próprio lugar de culto. No intervalo entre os sábados, Paulo trabalhava na produção de tendas, e o fato dele pregar por três sábados consecutivos mostra o respeito que tinha pelo quarto mandamento e a responsabilidade que mantinha com o evangelho. Ele transmitia os ensinos de Cristo não "somente em palavra, mas também em poder, no Espírito Santo e em plena convicção" (I Tessalonicenses 1:5 NVI). E como resultado, não se salvaram somente judeus e prosélitos, mas muitos gentios rejeitaram seus ídolos e passaram a seguir a Deus. E, assim como Paulo foi um imitador de Jesus quanto a observância sabática (Lucas 4:16 cf. Atos 17:2I Coríntios 4:16), igualmente foram os cristãos de Tessalônica: "De fato, vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor" (I Tessalonicenses 1:6NVI). Estas coisas foram relatadas 22 anos após a morte, ressurreição e ascensão de Cristo, e também neste caso não há registro de que os apóstolos guardaram o domingo, ou, que o sábado foi extinto.

"Depois disso Paulo saiu de Atenas e foi para Corinto. Ali, encontrou um judeu chamado Áquila, natural do Ponto, que havia chegado recentemente da Itália com Priscila, sua mulher, pois Cláudio havia ordenado que todos os judeus saíssem de Roma. Paulo foi vê-los e, uma vez que tinham a mesma profissão, ficou morando e trabalhando com eles, pois eram fabricantes de tendas.Todos os sábados ele debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos. (...) Assim, Paulo ficou ali durante um ano e meio, ensinando-lhes a Palavra de Deus." (Atos 18:1-11 NVI).
Local e Data: Corinto, 54 d.C.
Número de Reuniões: 78
Histórico: Primeiramente as seguintes informações devem ser consideradas: Paulo pregava aos judeus e gregos (gentios) todos os sábados (verso 4), e permaneceu na cidade de Corinto um ano e seis meses (verso 11); neste período transcorreram 78 sábados e, em todos, Paulo se reservou exclusivamente para ensinar o evangelho. Seu ofício era produzir tendas, mas no sétimo dia da semana ausentava-se desta atividade para cumprir o quarto mandamento que lhe concede trabalhar de domingo a sexta e, lhe exigi santificação do sábado para os propósitos de Deus. Com base nos relatos bíblicos, estes acontecimentos ocorreram 24 anos após a ressurreição de Jesus e nada referente a mudança do dia de sábado, ou, algo sobre a sua abolição foi apresentada. Paulo, ao dialogar sobre as Escrituras com os judeus, não se envolveu em nenhum conflito vinculado a observância do dia de sábado, e o mesmo ocorreu com os gentios. Observa-se também que nessa época não existia dois dias de guarda, sendo o sábado para os judeus e o domingo para os gentios; ao contrário, ambos os grupos tinham o sábado como o único dia santo reservado exclusivamente para estudar as Escrituras e adorar Deus. É dito claramente que Paulo "todos os sábados debatia na sinagoga, e convencia judeus e gregos" (Atos 18:4). Não existe nenhum relato afirmando que ele os gentios se reuniam aos domingos à exemplo das reuniões sabáticas. Ao longo de todo o Novo Testamento, não há nenhuma referência que demonstre Cristo e Seus discípulos contrariando o sábado, ou ensinando que os gentios estavam livres para transgredi-lo.


Vídeo relacionado: O Quarto Mandamento
a. Guardar o sábado não consiste meramente em abster-se de certos afazeres do cotidiano, este simplório procedimento desvirtua por completo o propósito da observância sabática, e fatalmente conduzirá a ilusória justificação baseada em obras. Embora seja necessário o findar de determinadas atividades e assuntos nos diálogos aos sábados, isso não deve ser feito com o intuito de obter o favor de Deus, o foco principal destas atitudes dever ser reservar os pensamentos para conhecer o Criador e os Seus propósitos para a criação; a mente deve está voltada exclusivamente para as coisas divinas. Esta prática desenvolverá naturalmente e de forma mais acentuada o caráter fiel e justo que Deus requer de cada um, será alcançada a personalidade exigida por Sua lei. A capacidade para servir a Deus e ao próximo será desenvolvida à semelhança de Cristo, que deixou o verdadeiro exemplo de santificação do sábado. E todo aquele que nEle se baseia auxiliado pelo Espírito Santo (Romanos 8:5-9; Hebreus 10:15-17), certamente cumprirá o quarto mandamento e receberá as bênçãos especiais reservadas no sétimo dia da semana (Isaías 56:2; Isaías 58:13-14).
bAnthropos, substantivo grego que refere-se a: um ser humano (homem ou mulher); todos os indivíduos humanos. À exemplo de Marcos 2:27, o verso de Marcos 6:44 aplica o vocábulo "anthropos" com o mesmo significado.
1. Tiago 2:8-13 cf. I João 3:4, Lucas 16:17, Mateus 5:17-19.
2. Marcos 2:23-24; Marcos 3:1-4; Lucas 13:10-17; João 5:1-18.
3. Baseado em: CHRISTIANINI, A. B. (1981). Subtilezas do Erro, 2.ª ed., São Paulo: CPB, p. 187-188.

sábado, 12 de julho de 2014

Sábados Semanais e Anuais

A maior parte dos ataques contra a lei de Deus são em decorrência do sábado descrito no quarto mandamento, e essa colossal aversão é completamente injustificável. A desinformação, acompanhada em alguns casos de fanatismo religioso, promove as inúmeras polêmicas criadas em torno da observância sabática. Na realidade, a maioria não teve a devida orientação sobre a origem e o propósito do sábado(a), fato análogo ao ocorrido com o oficial etíope (Atos 8:30-31). Outros, apesar de cientes do intuito de Deus ao estabelecer o sábado, preferem evitá-lo, pois de acordo com seus pensamentos isso acarretaria mudanças "desconfortáveis" em suas vidas; em essência, não estão dispostos a seguir algo que lhes privem de suas satisfações seculares.

Distinções sabáticas
O desconhecimento e preconceito sobre este tema é tão acentuado que muitos se surpreendem com a existência de outros sábados que diferem daquele descrito no Decálogo. Os sábados listados na Bíblia apresentam diferenças significativas que impossibilitam qualquer confusão ao classificá-los. Por exemplo, o sábado semanal citado pelo quarto mandamento, distingui-se por:
  1. Ter sido instituído após o término da criação, numa época em que não havia pecado no mundo;
  2. Estar voltado para as questões da origem e manutenção da vida;
  3. Exigir santificação do sétimo dia de cada semana para exclusiva consagração a Deus, sem liturgias mosaicas;
  4. Ser de natureza moral e estar incluído na lei de Deus, reunido entre mandamentos estritamente de princípios morais;
  5. Ter sido destinado a toda humanidade, independentemente de tempo e lugar.1
Enquanto os sábados anuais, presentes na lei mosaica, caracterizam-se por:
  1. Terem sido instituídos no monte Sinai, numa época em que o pecado se fazia presente no mundo;
  2. Estarem voltados para as questões da salvação do pecador e erradicação definitiva do mal;
  3. Exigirem santificação de períodos específicos do ano para consagração exclusiva a Deus, com liturgias mosaicas;
  4. Serem de natureza cerimonial e estarem incluídos na lei de Moisés, reunidos com vários tipos de mandamentos(b);
  5. Terem sido destinados aos israelitas e, dependerem de circunstâncias temporais e geográficas(c).2
Existe ainda um terceiro tipo de sábado destinado à terra. Este sábado, que ocorria a cada sete anos, tinha o propósito de amparar os necessitados com a produção do "sétimo ano" e, beneficiar a terra de forma similar ao que ocorre atualmente nos intervalos entre plantios (Êxodo 23:10-11 cf. Levítico 25:1-7).

E ao contrário do pensamento popular, a observância sabática instituída no Éden não é um assunto restrito ao Velho Testamento, ensinos ao seu respeito são encontrados também no Novo Testamento(d). Nos dois casos, Deus declara pessoalmente que o sábado semanal é de Sua propriedade:
"Cada um respeitará a sua mãe e o seu pai e guardará os Meus sábados. Eu sou o Senhor, vosso Deus." (Levítico 19:3 RA); "Guardareis os Meus sábados e reverenciareis o Meu santuário. Eu sou o Senhor." (Levítico 19:30 RA); "Porque assim diz o Senhor: 'Aos eunucos que guardam os Meus sábados, escolhem aquilo que Me agrada e abraçam a Minha aliança'." (Isaías 56:4 RA); "Também lhes dei os Meus sábados, para servirem de sinal entre Mim e eles, para que soubessem que Eu sou o Senhor que os santifica." (Ezequiel 20:12 RA); "Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. (...)" (Êxodo 20:10 RA); "Porque o Filho do homem é Senhor do sábado." (Mateus 12:8 RA); "Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado." (Marcos 2:28 NVI).
Lembrando que os versos de Mateus 12:8 e Marcos 2:28 fazem parte das arguições de Cristo contra as acusações dos fariseus de que Ele e Seus discípulos eram transgressores do quarto mandamento(e). Nestas duas ocasiões, Ele transmitiu os verdadeiros objetivos da observância sabática do sétimo dia e afirmou que o sábado Lhe pertence (cf. João 1:1-3).

Em relação aos sábados anuais, conhecidos também como sábados cerimoniais, Deus os considerou pertencentes ao povo de Israel.3 Esta nação possuía diversos dias de festas ao longo do ano, mas alguns eram exclusivamente reservados para consagração e foram tratados como sábados. Esses dias sabáticos ocorriam em datas fixas e, devido a dinâmica do calendário de cada ano, eram celebrados em diferentes dias da semana (Levítico 23:4II Crônicas 8:12-13). Deve-se destacar ainda que, quando um sábado anual (sábado cerimonial) coincidia em ser celebrado no sétimo dia da semana (sábado semanal), ele era chamado de grande sábado (João 19:31). Adiante os dias de santa convocação regulamentados como sabáticos:
1.º sábado cerimonial: Pães Asmos (Início) - 15.º dia do mês de Nissan (Levítico 23:6-8).
2.º sábado cerimonial: Pães Asmos (Término) - 21.º dia do mês de Nissan.
3.º sábado cerimonial: Primícias - 06.º dia do mês de Sivan (Levítico 23:15-21).
4.º sábado cerimonial: Trombetas - 01.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:23-25).
5.º sábado cerimonial: Expiação - 10.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:26-32).
6.º sábado cerimonial: Tabernáculos (Início) - 15.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:33-36).
7.º sábado cerimonial: Tabernáculos (Término) - 21.º dia do mês de Tishrei.
A respeito destes sábados cerimoniais, a Bíblia esclarece:
"São estas as festas fixas do Senhor, que proclamareis para santas convocações, para oferecer ao Senhor oferta queimada, holocausto e oferta de manjares, sacrifício e libações, cada qual em seu dia próprio, além dos sábados do Senhor, e das vossas dádivas, e de todos os vossos votos, e de todas as vossas ofertas voluntárias que dareis ao Senhor." (Levítico 23:37-38 RA). "Estas coisas oferecereis ao Senhor nas vossas festas fixas (...) (Números 29:39 RA).
Esses dias de devoção eram chamados de sábados porque as atividades do cotidiano cessavam e os israelitas se reuniam solenemente em adoração a Deus, assim como ocorre com o sábado semanal do quarto mandamento. Mas, enquanto os sábados anuais (cerimoniais) conduziam a mente da nação à providência divina para a salvação e eliminação do pecado e, recordavam momentos especiais da História de Israel, o sábado semanal direcionava os pensamentos às obras da criação, na vida originada e mantida pelo poder de Deus: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. (...) Porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou." (Êxodo 20:8-11 RAcf. Hebreus 4:4 e 10).

"Sombra das coisas que haviam de vir"
"Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou Lua Nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (Colossenses 2:16-17 RA).
Estes versos são comumente deturpados para apoiar a falsa teoria de que o sábado semanal seria também um sábado cerimonial e, portando, uma "sombra" (simbologia) de Cristo concretizada na cruz do Calvário. Esta interpretação além de insinuar que Deus descansou no sétimo dia (sábado semanal, Gênesis 2:1-3) com o mesmo objetivo que os israelitas descasavam aos sábados cerimoniais, revela-se um grosseiro pretexto para, sorrateiramente, se esquivar do quarto mandamento do Decálogo.

Em Colossenses 2:16-17 demonstra-se algo completamente oposto à referida teoria, visto que estes versos destacam uma das principais diferenças entre os sábados semanais e cerimoniais: o sábado referente ao sétimo dia da semana não representa "coisas que haviam de vir" porque está vinculado a um acontecimento do passado, a criação. As obras desempenhadas por Cristo em favor da salvação da humanidade eram "as coisas que haviam de vir", e foram simbolizadas pelas cerimônias mosaicas da antiga aliança(f). As liturgias praticadas em cada sábado cerimonial, especialmente as sacrificais, transmitiram os eventos proféticos que foram cumpridos pela missão redentora de Jesus Cristo.

Deve-se observar também que o apóstolo Paulo não condenou as festividades, luas novas e sábados destinados para os judeus(g). Embora os sábados cerimoniais e seus respectivos rituais tenham representado a Cristo e Seus atos de salvação, eles continuam vinculados a História do povo de Israel, pois:
festa dos Pães Asmos recorda a boa vontade e prontidão de Deus em libertar os israelitas do Egito (Êxodo 12:33-39Deuteronômio 16:3-4);
festa das Primícias (festas das Semanas) indicava o encerramento do período da colheita e fixava a mente dos israelitas na dependência que eles tinham de Deus, como na época em que estavam no Egito (Deuteronômio 16:9-12);
festa das Trombetas marca o início do ano civil judaico e lembra os acontecimentos do ano que se encerra (Levítico 23:24-25Números 29:1-2); e,
festa dos Tabernáculos (festa das Cabanas) recorda o tempo em que o povo de Israel viveu quarenta anos em tendas (cabanas) durante a sua jornada pelo deserto (Levítico 23:42-43).
Diante disso e, baseados no contexto de Colossenses capítulo 2, nota-se claramente que Paulo (hebreu, fariseu e profundo conhecedor da lei de Moisés, Atos 22:3Atos 26:4-5Filipenses 3:4-6), não afirmou que os sábados cerimoniais eram impróprios, e tampouco que foram totalmente anulados para os judeus. Mas ensinou que os rituais e os significados messiânicos de cada um deles foram concretizados (cumprido), porque "estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo." (Colossenses 2:17 NVI cf.Hebreus 9:9-10).

Paulo orientou os cristãos gentios da igreja de Colossos a não admitir entre eles, crenças e práticas que originavam-se de tradições de homens, pois elas deturpavam tanto o real significado que a liturgia mosaica possuía, quanto os ensinos de Cristo: "Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo." (Colossenses 2:8-9 NVI cf. Tito 1:10-14). Ora, os critérios alimentares, dias de festas, luas novas e sábados citados em Colossenses 2:16 não foram criados pelo homem e muito menos são enganosos ou baseados em princípios deste mundo, visto que tais coisas foram instituídas por Deus para proporcionar benefícios; de modo algum promoveram a escravidão e o engano.

Os colossenses não eram obrigados a seguir os regimentos da lei de Moisés direcionados aos judeus(h), e tampouco aceitar ensinos perniciosos que anulavam o evangelho (Colossenses 2:18-23). Eles foram orientados ainda a não permitir que os indivíduos que disseminavam falsos ensinos os julgassem ("ninguém, pois, vos julgue", Colossenses 2:16).

"Cessarei os seus sábados"
"Farei cessar todo o seu gozo, as suas festas de Lua Nova, os seus sábados e todas as suas solenidades." (Oséias 2:11 RA).
Este é outro verso retirado de seu contexto e associado ao falso ensino de que o sábado semanal era cerimonial e foi anulado. O capítulo 2 do livro de Oseias em momento algum transmiti tal coisa, mas discorre sobre: a idolatria dos israelitas e a repreensão que receberam(i); o afastamento de Deus por causa dos atos pecaminosos da nação de Israel (deixando-a para que recebesse os resultados de suas maléficas escolhas,versos 2-13); e, sobre a misericórdia que foi concedida novamente a ela (verso 14-23).

O texto de Oseias 2:3 quando relata: "Para que Eu não a deixe despida, e a ponha como no dia em que nasceu (...)" (RA), refere-se a condição que a nação de Israel foi submetida quando era escrava no Egito, e situação similar retornaria caso ela não abandonasse os seus pecados (haveria o retorno de seu anterior estado de debilidade). A decadência dos israelitas tinha atingido um nível tão deprimente, que eles consideraram as bênçãos concedidas por Deus, provenientes de Baal (Oseias 2:5 e 8). Então, Deus retirou a Sua proteção e demais benefícios. Esta atitude resultou no cativeiro dos israelitas pelos assírios (Oseias 2:9II Reis 17:21-23), e os seus "amantes" (outras nações) com os quais eles se corromperam não puderam ajudar (Oseias 2:7).

Em sua nova realidade, a nação de Israel não podia celebrar as festas de Lua Nova, os sábados cerimoniais, e outras festividades solenes (Oseias 2:11). Na verdade, antes do cativeiro, ela estava apenas seguindo por formalidade e superstição essas celebrações, além de as contaminar com suas práticas abomináveis. Ela encontrava-se afastada de Deus e em vão exercia as cerimônias descritas na lei de Moisés (II Reis 17:7-20 cf. Isaías 1:10-17).

Posteriormente, Deus a despertou para os Seus caminhos, a resgatou do cativeiro, auxiliou a restaurar suas plantações e, proporcionou novamente segurança em sua terra (Oseias 2:14-18). Assim, a nação israelita voltou a celebrar "as suas festas de Lua Nova, os seus sábados e todas as suas solenidades", porém, sem as antigas atitudes que a conduzira a ruína. Pode-se destacar ainda que, na época de Jesus, e após o Seu retorno ao Céu, essas comemorações continuaram sendo praticadas.4 Portanto, não existe nenhuma profecia em Oseias capítulo 2 anunciando o fim do sábado pertencente ao Decálogo, tampouco há algo nesse sentido no restante das Escrituras. Esta fictícia alegação é apenas mais uma inútil e desesperada investida contra o santo dia do Deus Criador (Isaías 58:13-14).


c. Os sábados cerimoniais dependiam de um lugar específico para que as suas respectivas liturgias fossem exercidas, e esse lugar era o santuário terrestre e seus arredores (Êxodo 25:1-9 cf. Deuteronômio 16:13-15). Posteriormente esse santuário foi substituído pelos templos, como aquele construído por Salomão (I Reis 6:38). Contudo, essas exigências litúrgicas e geográficas não se aplicam ao sábado semanal, que é santificado sem a necessidade dos rituais mosaicos e de um santuário ou templo, permitindo deste modo a sua aplicabilidade universal (Levítico 23:3; Atos 16:13).
g. Apesar das festas sabáticas terem sido destinadas para os judeus, havia a possibilidade dos gentios participarem delas (Levítico 24:22; Números 15:15-16).
i. Esta mensagem de repreensão e advertência foi destinada ao reino do norte (reino de Judá) entre 723-722 a.C.; e, após ter sido ignorada, houve a primeira invasão e prisão do povo pelos assírios.
1. Gênesis 2:1-3; Hebreus 4:4; Êxodo 20:8-11; Marcos 2:27-28 cf. Isaías 56:1-7; Neemias 13:15-18 cf. Isaías 58:13-14.
2. Levítico 23:37-38 cf. Levítico 7:37-38, Neemias 9:13-14; Ezequiel 45:16-17.
3. Levítico 23:32; Isaías 1:13-14; Lamentações 2:6; Oséias 2:11.
4. Zacarias 14:18-19; Marcos 14:12; João 2:13; João 5:1; João 7:2; João 10:22; Atos 2:1; Atos 12:4; Atos 20:16.

sábado, 5 de julho de 2014

Dias, Meses, Tempos e Anos

"Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos." (Gálatas 4:8-10 RA).
A palavra "rudimentos"(a), em Gálatas 4:9, refere-se ao conjunto de princípios fundamentais e seus respectivos hábitos. Sendo assim, quais são os "rudimentos" e os "períodos" de tempo mencionados nos versos acima?

"Rudimentos fracos e pobres"
Os cristão gentios da igreja de Galácia não estavam praticando "outra vez" (verso 9) os rudimentos pagãos, visto que, eles tinham abandonado seus princípios e costumes (Gálatas 4:3 e 8). Porém, se envolveram por exigência dos judaizantes(b), com os rudimentos cerimoniais prescritos na lei de Moisés.1 Apesar da enorme diferença entre os costumes litúrgicos pagãos e mosaicos, ambos, naquele momento, causavam escravidão por se tratarem de cerimônias sem utilidade alguma; além disso, havia o constante intuito de se obter o favor divino por meio deles.

Desde os seus primórdios, as práticas litúrgicas pagãs são por natureza repulsivas e inúteis. Em contrapartida, as liturgias mosaicas foram estabelecidas por Deus com o propósito de direcionar o pecador a Cristo; mas, cessaram na cruz do Calvário.2 Embora extremamente distintas quanto a origem, objetivos e procedimentos, as cerimônias pagãs e mosaicas promoviam escravidão por não terem condições de beneficiar os seus respectivos praticantes, eram cerimônias igualmente "fracas e pobres" em relação a utilidade - a princípio não tinham importância e apartavam o pecador de Deus. Por isso Paulo indagou os gálatas: porque vocês estão "voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?" (Gálatas 4:9 NVI cf. Gálatas 2:4Gálatas 5:1). E, a circuncisão, era um desses "rudimentos fracos e pobres" que os escravizavam. A propósito, a circuncisão era o principal problema confrontado por Paulo na igreja de Galácia (Gálatas 2:3-5 e 12Gálatas 5:2-4Gálatas 6:12-15).

Aqueles que planejavam obter perdão ou justificação por meio da lei de Moisés permaneciam escravos de seus pecados, visto que Deus sempre agiu mediante a fé no sacrifício de Jesus (Gálatas 2:16-21João 1:29 cf.Apocalipse 13:8). E esse proceder equivocado já havia sido condenado por Paulo em Gálatas 3:10-11 (RA): "(...) Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da Lei(c), para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé." (cf. Gálatas 5:3,Gálatas 6:13). Portanto, apesar de livres da escravidão ocasionada pelos rudimentos do paganismo, os cristãos da igreja de Gálatas haviam se tornando escravos, novamente, mas agora de rudimentos litúrgicos da lei mosaica.

Estes rudimentos cerimoniais da lei eram "fracos e pobres" em vários aspectos: não tinham condições de proporcionar salvação(d); continham diversos simbolismos ultrapassados (Hebreus 9:9-10); estavam repletos de tradições rabínicas destituídas de fundamento escriturístico (Isaías 29:13-14Tito 1:10-14); e, não havia mais interação de Deus por meio deles (Mateus 27:51 cf. Hebreus 8:1-6). Em resumo, os cristãos da igreja de Galácia estavam renunciando a mensagem de salvação transmitida pelo evangelho e acatando a perdição (a escravidão) imposta pelos judaizantes, que consideravam a observância integral da lei de Moisés como meio de conseguir a vida eterna (cf. Atos 15:1-5).

"Guardais dias, e meses, e tempos, e anos"
O povo israelita tinha diversos dias festivos e de consagração destinados a: comemorar a historicidade de Israel; exercer as liturgias específicas do santuário terrestre; e, praticar jejuns (individuais e coletivos). E a expressão de Paulo, "guardais dias, meses, tempos, e anos", refere-se ao conjunto desses dias especiais. Exemplificando pela Bíblia:
Dias: refere-se aos dias exclusivos para devoção, entre eles: 15.º e 21.º dia do mês de Nissan (Levítico 23:6-8); 06.º dia do mês de Sivan (Levítico 23:15-21); 01.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:23-25); 10.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:26-32); 15.º e 21.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:33-36); e, dias de jejum (Jeremias 36:6Zacarias 8:19).
Meses: comemoração do início de cada mês, ocorria a cada Lua Nova (Números 28:14Salmos 81:3-5).
Tempos: corresponde ao período de duração das festas anuais e santas convocações, tais como: Pães Asmos (Deuteronômio 16:3-4), Primícias (Deuteronômio 16:9-10), Trombetas (Levítico 23:24), Tabernáculos (Levítico 23:42-43), Páscoa (Levítico 23:5) e, Purim (Ester 9:26-28).
Anos: refere-se ao sétimo ano (ano sabático, Êxodo 23:10-11) e ano do Jubileu (Levítico 25:8-12).
Deve-se destacar ainda que, os simbolismos de Jesus não refletiam-se apenas nos dias litúrgicos do santuário, mas estavam presentes também nas comemorações históricas de Israel. De qualquer forma, nos dois casos, com o evento da cruz do Calvário a finalidade simbólica findou e o valor histórico das comemorações permaneceu. Apesar disso, os judaizantes ignoravam estas questões e persuadiam os cristãos gentios de Galácia a guardarem esses dias; algo similar ao que ocorrera na igreja de Colossos(e).

A guarda do sábado
Muitos, sem base escriturística e histórica sobre este assunto, ao lerem a expressão: "guardais dias, meses, tempos, anos" (Gálatas 4:10), alegam que Paulo incluiu também a guarda do sábado estabelecido no sétimo dia da semana e, o classificou como algo escravizador, rudimentar e fraco (Gálatas 4:9). Entretanto, por meio da própria Bíblia observa-se a leviandade desta insinuação pelos seguintes fatores:
  • Se a observância do sábado sujeita à escravidão, então, o próprio Deus tornou-Se escravo pela observância do sábado ao instituí-la no Éden (Gênesis 2:2-3Êxodo 20:11). Cristo, igualmente, permaneceu em escravidão ao santificar o dia de sábado (Lucas 4:31-32Lucas 6:6-7); e não Se conteve em escravizar-Se, pois direcionou outros à mesma situação (Mateus 24:20Lucas 4:16 cf. I Tessalonicenses 1:6).
  • Que motivo conduziria Paulo a sobrepujar as recomendações e bênçãos de Deus sobre o sábado descritas em Isaías 56:1-7Isaías 58:13-14 e, Isaías 66:22-23?
  • Paulo considerara a lei de Deus, integralmente, "santa, justa e boa" (Romanos 7:12). E, no âmago de sua vida, tinha prazer em obedecê-la (Romanos 7:22). Então, como ele poderia tê-la como prazerosa, se o sábado (defendido pelo quarto mandamento desta mesma lei) fosse tratado como algo escravizador e rudimentar? (cf. Isaías 58:13-14). Ele poderia realmente afirmar que a lei de Deus era "justa e boa"?
Paulo nunca considerou o sábado um "rudimento fraco e pobre", ao contrário, o Novo Testamento(f) apresenta diversas referências demonstrando o seu zelo por este dia.3 Ele teve diversas oportunidades para classificar diretamente o sábado (sétimo dia da semana) como obsoleto, pobre e escravizador; houve várias ocasiões em que ele poderia ter asseverado aos cristãos judeus e gentios que os propósitos do descanso sabático findara; contudo, nunca o fez.

Apesar das provas bíblicas em favor do sábado, os mais revoltosos contra ele, apresentam ainda a alegação de que Paulo dirigia-se às sinagogas aos sábados motivado pelo seu encontro com os judeus, e não pela observância sabática determinada pela lei de Deus (Decálogo). Esta insinuação além de ser desprovida de fundamento bíblico, contrapõe três pontos da vida deste apóstolo:
  1. Paulo após aceitar o evangelho foi severamente perseguido pelos judeus (principalmente pelos líderes) e sempre encontrou resistência por parte deles em decorrência de seus ensinos, houve até mesmo tentativas de matá-lo;4 fatos semelhantes aconteceram com Jesus (Mateus 26:1-4Marcos 14:55Lucas 11:53-54). Portanto, a sua ida às sinagogas aos sábados não era por causa dos judeus, ele observava o sábado por questões espirituais e tinha satisfação nisso (Romanos 7:14 e 22 cf. Atos 16:13).
  2. O ministério de Paulo era voltado preponderantemente aos gentios, uma vez que os judeus (não todos) rejeitavam o evangelho:
  3. "No sábado seguintequase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. Quando os judeus viram a multidão, ficaram cheios de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo estava dizendo. Então Paulo e Barnabé lhes responderam corajosamente: 'Era necessário anunciar primeiro a vocês a palavra de Deus; uma vez que a rejeitam e não se julgam dignos da vida eterna, agora nos voltamos para os gentios. Pois assim o Senhor nos ordenou: Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da Terra'. A palavra do Senhor se espalhava por toda a região." (Atos 13:44-49NVI).
    Fato inquestionável: havia multidões de gentios aos sábados acompanhando as pregações de Paulo, em várias ocasiões a quantidade de judeus era ínfima em comparação aos gentios presentes. E o Novo Testamento sempre destaca ambos os grupos reunidos neste dia estudando as Escrituras, louvando e orando a Deus (Atos 13:42-43Atos 17:1-4Atos 18:4), ou seja, guardavam o sábado por questões espirituais.
  4. Paulo era fariseu, profundo conhecedor da lei e exigente quanto a obediência de seus mandamentos:
  5. "Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade. Fui instruído rigorosamente por Gamaliel(g) na lei de nossos antepassados, sendo tão zeloso por Deus quanto qualquer de vocês hoje." "(...) Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível." (Atos 22:3 NVIFilipenses 3:6 NVI).
    Os fariseus eram extremados na dedicação à lei, e os Evangelhos demonstram vários exemplos do zelo radical que eles mantinham com o sábado.5 Então, como Paulo poderia se considerar zeloso e irrepreensível em relação a lei se profanasse o sábado? A fé que Paulo tinha tanto em Jesus quanto na Sua graça(h), nunca desviou a sua lealdade da lei de Deus (Romanos 3:31Romanos 6:15). Qualquer desrespeito de sua parte pelo sábado transgrediria diretamente o quarto mandamento desta lei, que Jesus ensinou ser intocável (Mateus 5:17-19Lucas 16:17 cf. Apocalipse 14:12).
E, para finalizar, um comparativo muitíssimo oportuno quanto a guarda do sábado promovida por Jesus, pelo apóstolo Paulo e demais cristãos de sua época:
"Jesus voltou para a Galileia no poder do Espírito, e por toda aquela região se espalhou a Sua fama. Ensinava nas sinagogas, e todos O elogiavam. Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era Seu costume. E levantou-Se para ler." (Lucas 4:14-16 NVI).
"Segundo o seu costumePaulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escriturasexplicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: 'Este Jesus que lhes proclamo é o Cristo'." (Atos 17:2-3 NVI). "Portanto, suplico-lhes que sejam meus imitadores." (I Coríntios 4:16 NVI).
"Quando Paulo e Barnabé estavam saindo da sinagoga, o povo os convidou a falar mais a respeito dessas coisas no sábado seguinte." (Atos 13:42 NVI). "De fato, vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, pois, apesar de muito sofrimento, receberam a Palavra com alegria que vem do Espírito Santo." (I Tessalonicenses 1:6 NVI).

a. O termo "rudimentos" origina-se do substantivo grego "stoicheion", que significa: princípio elementar; noção inicial; algo primordial, primário; fundamento básico.
b. Aquele que pratica os ritos judaicos e motiva outros a segui-los; aquele que procura converter outros ao judaísmo.
d. Na realidade as práticas mosaicas nunca tiveram o poder de perdoar e salvar. As regras cerimoniosas entregues por Deus, sobretudo às vinculadas ao santuário terrestre, tinham o objetivo de transmitir o plano da salvação. Deus nunca concedeu o cerimonialismo da lei de Moisés com o propósito de ser o foco da fé, ou, o motivo pelo qual deveria-se abandonar o pecado (Hebreus 10:1-4 cf. Colossenses 2:17). E pela falta de entendimento desta questão, os judeus praticavam as orientações litúrgicas da lei com o intuito de conseguir a justificação por meio de suas obras (Romanos 9:30-33).
e. Acesse: Sábados Semanais e Anuais (em: Sombra das coisas que haviam de vir).
f. Acesse: O Sábado no Novo Testamento (em: Reuniões sabáticas no Novo Testamento).
g. Gamaliel era fariseu, mestre da lei e respeitado por todo o povo judeu (Atos 5:34).
1. Gálatas 1:6-7, Gálatas 2:3-5, Gálatas 4:17; Gálatas 6:13.
2. João 1:45; João 5:46; Marcos 15:37-39; Gálatas 3:23-24.
3. Atos 13:42-44; Atos 16:13; Atos 17:1-4; Atos 18:1-4.
4. Atos 9:20-25; Atos 9:28-29; Atos 14:1-4; Atos 21:27-36; Atos 23:1-10; e etc.
5. Mateus 12:1-8; Mateus 12:9-14; Lucas 13:10-17; Lucas 14:1-6; e etc.