sábado, 16 de agosto de 2014

Adão, Abraão e o Sábado

"Se desviares o pé de profanar o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no Meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do Senhor, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no Senhor. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do Senhor o disse." (Isaías 58:13-14 RA).

No Éden, Deus estabeleceu o memorial de Sua obra da criação, depondo a Sua bênção sobre o sétimo dia. O sábado foi confiado a Adão, pai e representante de toda a família humana. Sua observância deveria ser um ato de grato reconhecimento, por parte de todos os que morassem sobre a Terra, de que Deus era seu Criador e legítimo Soberano; de que eles eram a obra de Suas mãos e súditos de Sua autoridade. Assim, a instituição era inteiramente comemorativa e foi dada a toda a humanidade. Nada havia de prefigurativo ou de aplicação restrita a qualquer povo.1

O sábado não se destina meramente a Israel, mas ao mundo. Fora tornado conhecido ao homem no Éden, e, como os demais preceitos do Decálogo, é de imutável obrigatoriedade(a). A lei, na qual o quarto mandamento é uma parte, declara Cristo: "Até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido." (Mateus 5:18 KJV cf. Lucas 16:17). Enquanto céus e Terra durarem, continuará o sábado como sinal do poder do Criador. E quando o Éden florescer novamente na Terra, o santo e divino dia de repouso será honrado por todos debaixo do Sol. "Desde um sábado até ao outro", os habitantes da glorificada Nova Terra irão "adorar perante Mim, diz o Senhor." (Isaías 66:22-23 KJV).2

O primeiro sábado entre Criador e criatura
Após concluir a criação no sexto dia (Gênesis 1:31Gênesis 2:1 cf. Êxodo 20:11), Deus conduziu Adão durante o sétimo dia para que contemplasse as Suas obras, e o encarregou de cuidar da vasta criação, especialmente do jardim do Éden (Gênesis 2:15-19). Adão recebeu também a instrução de que teria seis dias na semana (do primeiro ao sexto, de acordo com a ordem cronológica estabelecida em Gênesis capítulo 1) para realizar as suas atividades; mas, a cada sétimo dia, ele cessaria seus afazeres e reservaria este tempo exclusivamente para consagrá-lo ao Criador. Os motivos para este procedimento foram igualmente transmitidos (Gênesis 2:2-3).

Entretanto, o pecado arruinou a perfeição original (Gênesis capítulo 3), e Deus através de Sua onisciência sabia que, gradativamente, as futuras gerações do homem se envolveriam de forma mais acentuada com o pecado e renegariam os Seus propósitos para satisfazer a ambição e o egoísmo; que a instituição do sábado não seria poupada nesse percurso pecaminoso e destrutivo(b) (cf. Gênesis 6:5-7Ezequiel 22:7-8 e 26Romanos 1:18-32).

Com o intuito de combater a negligência e ataques que o Seu santo dia receberia ao longo dos tempos, Deus redigiu o quarto mandamento com um imperativo: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar", seguido da justificativa: "Porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou." (Êxodo 20:8-11 RA cf. Gênesis 2:1-3Hebreus 4:4). A humanidade jamais deveria esquecer que, por intermédio de Deus tudo foi criado e a Ele, unicamente, deve ser direcionadas a adoração e obediência (Eclesiastes 12:13I Timóteo 1:17). "Tivesse sido o sábado universalmente guardado, os pensamentos e afeições dos homens teriam sido dirigidos ao Criador como objeto de reverência e culto, jamais teria havido idólatra, ateu, ou incrédulo."3 Portanto, estes são os principais "motivos" que conduzem Satanás a atacar o quarto mandamento mais ferozmente: adoração exclusiva a Deus e obediência integral aos Seus desígnios (Isaías 14:13-14Ezequiel 28:13-15Apocalipse 12:17). O próprio Deus, a respeito desta questão adverte:
"Assim diz o Senhor: 'Mantende o juízo e fazei justiça, porque a Minha salvação está prestes a vir, e a Minha justiça, prestes a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que faz isto, e o filho do homem que nisto se firma, que se guarda de profanar o sábado e guarda a sua mão de cometer algum mal'." (Isaías 56:1-2 RA cf. Isaías 58:13-14).
Esta mesma mensagem de advertência sobre a justiça e soberania de Deus, e Seu inalienável direito de receber adoração (defendido pelo sábado), está registrada em Apocalipse 14:7: "(...) Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo; e adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas."(c). Compare atentamente as semelhanças entre Êxodo 20:11 e Apocalipse 14:7.

Ignorando estas revelações bíblicas e inquietos para se desvencilhar da observância sabática, os impetuosos violadores do quarto mandamento acusam até mesmo a Jesus de ser transgressor do sábado(d). E esta mesma incriminação é feita contra Adão e Abraão, porém, com a alegação adicional de que ambos nunca souberam da origem e propósito do sábado. Todavia, os denunciantes de Jesus e dos patriarcas nunca apresentaram nas Escrituras algo que sustente suas falsas condenações.

Jesus ao rebater as acusações farisaicas contra Seus discípulos a respeito da observância sabática, declarou: "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado." (Marcos 2:27 RA). Esta declaração foi motivada, entre outros motivos, porquê os fariseus consideravam o sábado mais importante do que o ser humano. Jesus refutou este engano ensinando que Deus tinha o homem como mais precioso, e que concedeu o sábado para o seu benefício. A palavra "homem" usada em Marcos 2:27 é traduzida do substantivo grego "anthropos", que por sua vez refere-se a homens, mulheres e crianças, ou seja, abrange qualquer ser humano. Neste ponto a acusação feita contra Adão é novamente anulada pois, sendo ele progenitor da raça "anthropos" (humana), o sábado, obviamente, também foi lhe designado. As palavras de Cristo são claríssimas: "o sábado foi feito para o homem", e não especificamente para o judeu (cf. Isaías 56:1-7).

Quanto a Abraão, Deus o defende com as seguintes palavras: "(...) Abraão obedeceu à Minha palavra e guardou os Meus mandados, os Meus preceitos, os Meus estatutos e as Minhas leis." (Gênesis 26:5 RA). Não havendo como ignorar esta declaração a favor deste patriarca, os seus acusadores elaboram desastrosas e capciosas interpretações alegando que: Deus estava valendo-Se de linguagem figurativa quanto à sua obediência; as palavras "mandado", "preceito", "estatutos" e "leis" são sinônimos; e que o sábado não estava incluído nas orientações divinas entregues a ele. Estas investidas além de serem inúteis e ofensivas contra Deus e seu seguidor, revelam completo desconhecimento linguístico pois em Gêneses 26:5 tem-se a palavra:
Mandado(e), traduzida do substantivo hebraico "mishmereth", que significa: ofício; serviço; função; obrigação.
Preceito(f), proveniente do substantivo hebraico "mitsvah", que significa: mandamento (coletivamente formam uma lei).
Estatuto(g), procedente do substantivo hebraico "chuqqah", que significa: decreto, resolução, conjunto de regulamentos; conjunto de ordenanças.
Lei(h), originada do substantivo hebraico "Towrah", que significa: instrução; orientação; lei deuteronômica ou lei mosaica; leis específicas, por exemplo: lei de oferta queimada; códigos específicos, por exemplo, o Decálogo. A "Towrah" por extensão de sentido abrange os ensinos proféticos.
Estas informações esclarecem (para o desespero dos oponentes) que: Abraão exerceu os mandados (ofícios, funções -mishmereth) que eram norteados pelos estatutos (regulamentos, resoluções - chuqqah). Ele obedeceu também as leis (conjunto de regras - Towrah) formadas pelos preceitos (mandamentos - mitsvah). Essas leis determinaram, por exemplo, as normas cerimoniais (como a construção de altar e ofertas de sacrifício) e, conduziram-lhe aos princípios e regras morais, como por exemplo, àqueles presentes no Decálogo.

Towrah foi posteriormente proclamada em sua forma escrita no monte Sinai(i), sendo o Decálogo entregue em duas tábuas de pedra, e os demais códigos (leis) repassados para o livro de Moisés(j), alguns após serem atualizados e ampliados para atender a realidade do povo de Israel. E este povo, descendente de Abraão, tivera conhecimento das leis transmitidas por esse patriarca antes de chegarem ao monte Sinai (Gênesis 18:19Gênesis 26:4-5); Deus inclusive realizou um teste quanto a sua lealdade através do quarto mandamento (Êxodo capítulo 16). Assim, surge a inevitável pergunta: Em meio a todas as leis e estatutos divinos, por que unicamente o mandamento do sábado estaria ausente para Abraão?

Considerações Finais
Muitos nunca obtiveram essas informações bíblicas por desinteresse e, ingenuamente, permanecem acreditando nas difamações atribuídas a Adão e Abraão quanto a observância sabática. Outros, embora cientes desses esclarecimentos escriturísticos continuam mantendo aversão pelo quarto mandamento, e até mesmo por todo o Decálogo enquanto professam seguir a Cristo (João 15:10Lucas 4:16Êxodo 20:8); tais indivíduos nutrem um orgulho semelhante àquele que conduziu Satanás a ruína.

Somente especulações maléficas, idealizadas para tentar anular a exigência da lei de Deus, promoveriam a degradante atitude de acusar a Cristo e os patriarcas de violadores do sábado. Os insubordinados que sustentam esta difamação não percebem que estão a transgredir toda a lei pela negligência sabática e por falso testemunho (Tiago 2:8-12 cf. Lucas 16:17). E certamente que, Satanás, valendo-se dos últimos momentos que lhe resta, atuará com os seus súditos de forma voraz para denegrir e perseguir aqueles que buscam obedecer "aos mandamentos de Deus e se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus." (Apocalipse 12:17 NVI cf.Apocalipse 14:12).


e-h. STRONG, J. (2002). Nueva Concordancia Strong Exhaustiva. Publisher: Thomas Nelson; (ref.: 04931; 04687; 02708 e 08451). GENESIUS, W. (1950). Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scripture, London: Samuel Bagster & Sons, p. 518b.
i. Paulo menciona esta questão ao dizer: "a lei, que veio quatrocentos e trinta anos depois" (Gálatas 3:17 NVI). A lei (Towrah) antes de ser entregue na sua forma escrita por Moisés, foi inicialmente repassada oralmente por Abraão. E esta maneira de transmitir a lei durou 430 anos, apesar das adversidades.
1. WHITE, E. G. Patriarcas e Profetas, São Paulo: CPB, sec. I, cap. 2, p. 48.
2. WHITE, E. G. Desejado de Todas as Nações, O; São Paulo: CPB, sec. IV, cap. 29, p. 283.
3. WHITE, E. G. Grande Conflito, O; São Paulo: CPB, sec. III, cap. 25, p. 438.


sábado, 9 de agosto de 2014

O Maior Santificador do Sábado - III

O posicionamento bíblico de que Jesus jamais agiu contra o sábado(a), é aceito e defendido por várias igrejas cristãs. E logo abaixo, estão listadas algumas delas com os seus respectivos ensinos:


Igreja Anglicana
"Esta é a primeira declaração pública[b] de hostilidade a Cristo; e está apoiada na suposta violação da letra da lei relacionada com o sábado, assim como nos outros Evangelhos, Mat. 12.2 ss. e paralelos. O milagre registrado descreve exatamente à inimizade estabelecida pelos judeus, mas a frase 'porque Ele fazia', ou melhor, 'costumava fazer, tinha o hábito de fazer, essas coisas' (atos de misericórdia que acarretaram em crimes contra às interpretações tradicionais da lei) no sábado, demonstra que o sentimento não foi devido a um ato isolado, mas por um óbvio princípio de comportamento.
[...] As obras de Cristo não violam a lei, ao passo que elas conduzem à verdade a qual tendiam (cf. Mat. 12.1 ss. e paralelos). Pelo 'trabalho' do Pai, devemos entender de imediato a manutenção da importante criação e a redenção e restauração de todas as coisas, na qual o Filho cooperou com Ele (Heb. 1.3Ef. 1.9 f.). [...] O trabalho de Cristo que havia provocado a hostilidade dos judeus foi, apesar de pouco compreendido por eles, realmente idêntico ao trabalho de Deus que não conhece interrupção."1

Igreja Assembleia de Deus
"[...] Jesus não demonstrou qualquer conivência com a desobediência aos mandamentos de Deus; apenas enfatizou o discernimento e a compaixão na aplicação das leis. Os Dez Mandamentos exigiam que o sábado sempre fosse um dia santificado ao Senhor (Êx. 20.8-11). Mas os fariseus, de acordo com sua interpretação da lei, criaram uma longa lista de atividades que não poderiam ser praticadas nesse dia, e as pessoas foram forçadas a 'descansar'. Eles se prenderam à letra da lei.
Jesus sempre enfatizou o significado e a finalidade dos mandamentos. Mas os fariseus haviam perdido o verdadeiro sentido da lei de Deus e estavam, com todo o rigor, exigindo que ela fosse cumprida de acordo com a interpretação que eles julgavam ser correta. A verdadeira finalidade do sábado era proporcionar às pessoas tempo para descansar e adorar a Deus, por isso os sacerdotes tinham permissão de oferecer sacrifícios e conduzir os cultos de adoração, porque seu trabalho no sábado tinha a finalidade de servir e adorar a Deus."2

Igreja Batista
"Durante o período entre os dois Testamentos, entretanto, foi surgindo gradualmente uma alteração no que diz respeito à compreensão acerca do propósito do sábado. Nas sinagogas a lei era estudada no sábado. Paulatinamente a tradição oral foi se desenvolvendo entre os judeus, e a atenção passou a focalizar-se na observância de minúcias. Dois tratados da MishnahShabbath e 'Erubin, são devotados à consideração de como o sábado devia ser detalhadamente observado. Foi contra essa sobrecarga aos mandamentos de Deus, pelas tradições humanas, que nosso Senhor se insurgiu. Suas observações não eram dirigidas contra a instituição do sábado como tal, nem contra o ensinamento do AT [Antigo Testamento]. Mas Ele se opunha aos fariseus, que deixavam a palavra de Deus sem efeito por causa de suas pesadíssimas tradições orais. Cristo identificou-Se como Senhor do sábado (Mc 2.28). Ao assim falar, Ele não estava depreciando a importância e a significação do sábado, nem de forma alguma estava em contravenção contra a legislação do AT. Ele estava simplesmente apontando para a verdadeira significação do sábado no que diz respeito ao homem, e indicava o Seu direito de falar, visto que Ele mesmo era o Senhor do sábado.
Embora fosse Senhor do sábado, Jesus Cristo frequentava a sinagoga no dia de sábado, conforme era de Seu costume (Lc 4.16). Sua observância estava de conformidade com a prescrição do AT no referente ao dia como santo ao Senhor. Em Seu conflito com os fariseus (Mt 12.1-14Mc 2.23-28Lc 6.1-11) nosso Senhor salientou perante os judeus o fato que eles mal entendiam completamente os mandamentos do AT. Buscavam tornar a observância do sábado mais rigorosa do que Deus havia ordenado. Não era errado comer no sábado, ainda que o alimento tivesse de ser obtido ao debulhar o grão da espiga nas mãos. Semelhantemente, não era errado fazer o bem no dia de sábado. As curas eram uma obra de misericórdia, e o Senhor do sábado é misericordioso (cf. tb. Jo 5.1-18Lc 13.10-1714.1-6).3

Igreja Católica
"Proporcionando, com autoridade divina, a interpretação definitiva da Lei, Jesus colocou-Se numa situação de confronto com certos doutores da Lei, que não aceitavam a Sua interpretação, muito embora garantida pelos sinais divinos que a acompanhavam. Isto vale sobretudo para a questão do sábado: Jesus lembra, e muitas vezes com argumentos rabínicos, que o repouso sabático não é violado pelo serviço de Deus ou do próximo que as Suas curas realizam."4

"Sob a influência da rigorosidade farisaica, um sistema de regulamentos minucioso e opressor foi elaborado, enquanto que o maior propósito do sábado foi perdido de vista. A Mishna Treatise Shabbath enumera trinta e nove fundamentos básicos sobre ações proibidas, cada um com subdivisões. [...] Cristo, ao observar o sábado, pôs-Se em palavras e atitudes contra essa rigorosidade absurda que tornou o homem um escravo do dia. Ele reprovou os escribas e fariseus por colocarem um fardo insuportável sobre os ombros dos homens (Mateus 23.4), e proclamou o princípio de que "o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Marcos 2.27). Ele curou no sábado, e defendeu Seus discípulos por colher espigas de cereal nesse dia. Em Seus argumentos com os fariseus sobre estas questões, Ele demonstrou que o sábado não é violado em casos de necessidade ou por atos de caridade (Mateus 12.3 ssMarcos 2.25 ssLucas 6.3 ss14.5)."5

Igreja Congregacional
"Somos ensinados por Cristo, que a pratica de caridade e a demonstração de misericórdia são atividades apropriadas para o dia de sábado. Quando os fariseus acharam falha em Cristo por tolerar os Seus discípulos a colher e comer as espigas de cereal no sábado, Cristo os repreendeu com esta declaração: "Terei misericórdia e não sacrifício" (Mateus 12:7). Cristo ensina que as obras de misericórdia são adequadas para serem realizadas no sábado (Lucas 13.15,16 e 14.5)."6

Igreja Luterana
"[...] Deus nunca está ocioso, segundo nosso modo de dizer, Ele nem poderia estar; pois cessando um momento de preservar o mundo que criou, imediatamente ele [o mundo] precipitaria em sua original inexistência. Por isso Jesus citou, João 5:17, quando os judeus O acusaram de violar o sábado: 'Meu Pai trabalha até agora' (constantemente, mesmo em dia de sábado) 'e Eu trabalho' (mas somente pelo bem-estar). [...] o homem foi feito à imagem de Deus, e o sábado foi santificado e abençoado no estado de inocência[c]; isso pode nos ensinar que não é uma questão de indiferença, se vamos ou não abster-nos por um tempo de nossos trabalhos regulares e descansar como Deus, com Deus e em Deus.
Portanto, a estes mandamentos: não terás outro deus diante de Mim - não tomarás o nome de Deus em vão - honra teu pai e mãe - não matarás - não cometerás adultério, e etc., Deus uniu com igual autoridade, também, este mandamento: Lembre-se do dia de sábado para santificá-lo. Por sua vez, é verdade o que Jesus disse de todos os mandamentos e, consequentemente, também da santificação do sábado, que o amor a Deus e ao nosso próximo é o cumprimento da lei (Mat. 22:40Rom. 13:10); igualmente, o que disse em Marcos 2:27: 'O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado', e novamente em Mateus 12:12: 'é lícito fazer o bem nos dias de sábado'. Ele também realizou muitos milagres no sábado sem ponderar o que os fariseus e outros judeus consideravam transgressão; de modo que, quando viram Seus milagres e, não podendo negar a realidade deles, fingiram [dizendo]: 'este Homem não é de Deus, visto que Ele não guarda o sábado' [João 9:16]. O mesmo ocorre nos dias atuais, os homens estão sempre deparando-se com extremos a respeito da observação do sábado."7

Igreja Metodista
"Agora, existe aqui o menor indício de que o sábado não era mais obrigatório, ou que o nosso Salvador o aboliu?[d] Em vez disso, Ele passa a defender a conduta de Seus discípulos na ocasião, provando que sob as circunstâncias do ocorrido, eles tinham justificativa em colher e comer as espigas de trigo, e que eram, portanto, inocentes quanto à violação da lei sabática, coisa que Ele [Jesus] certamente não teria feito, não tivesse a lei mais vínculo. Por que defender os Seus discípulos dessa maneira, se a lei supostamente violada não era mais obrigatória? Por que não disse de imediato que a lei do sábado foi abolida, e que eles não estavam sob a obrigação de guardá-la?
[...] Nosso Senhor, portanto, longe de ensinar nesta passagem [Mateus 12:8], que o sábado não era mais necessário, ou de transmitir alguma insinuação de que Ele pretendia aboli-lo, indiretamente demonstra sua obrigação essencial resgatando-o da estima demasiadamente rigorosa e supersticiosa franqueada pelos fariseus de Sua época.
[...] É desnecessário citar quaisquer casos adicionais, visto que eles não projetarão grande luz sobre o assunto. Todos eles revelam que o nosso Salvador ensinou que as obras de necessidade e misericórdia podem ser realizadas no sábado sem qualquer violação da lei sabática, ou profanação do dia santo; não obstante, em nenhum caso há, semelhantemente, uma ocorrência sugerindo que o sábado não era mais obrigatório, ou que poderia ser legalmente dedicado para fins de negócios ou de diversão."8

Igreja Presbiteriana
"Em Seu ministério, Jesus cumpriu a lei de Deus. O Evangelho de Mateus particularmente sustenta a indicação de que Jesus curou e ensinou 'a fim de cumprir o que foi dito pelo profeta' (Mt 8:1712:17). Sua interpretação da lei diferiu daquela geralmente entendida em Sua época. Ele inclusive curou no sábado, em violação às leis rigorosas. Em Suas ações, Jesus mostrou que Deus esperava obediência em atos de justiça e misericórdia, e não meramente a realização de atos ritualísticos religiosos pré-determinados. O ministério de Jesus foi uma vida abrangente de serviço e compaixão, realizado em obediência ao propósito de Deus em prol das pessoas.
Presbiterianos, assim como outros cristãos, consideram que na Sua morte, Jesus também ministrou cumprindo a lei de acordo com a providência de Deus. [...] Jesus, perfeitamente obediente em vida e morte, fez o que nenhum outro ser humano foi capaz de fazer. Paulo e demais pregadores cristãos primitivos mostraram o contraste entre a vida de Jesus e a vida de outros, tal como Abraão e Davi (Rom 4). Acima de tudo, eles contrastaram a desobediência de Adão (e Eva) com a obediência de Jesus Cristo. [...] Jesus reinterpretou outros dos Dez Mandamentos e [outras] leis, para que às pessoas pudessem ver que Deus exigia obediência total em mente e espírito, bem como em obras.9


b. Comentário fundamentado no relato de João 5:16-18.
c. Referindo-se ao término da criação (Gênesis 2:1-3), época em que havia o total domínio da inocência (pureza, santidade).
d. Pergunta sobre o relato de Mateus 12:1-8.
1. COOK*, C. F. (1880). The Holy Bible: according to the authorized version (A.D. 1611), vol. II (New Testament), London: John Murray, p. 83-84; (commentary and revision of the translation: by bishops and other clergy of the Anglican Church. *Charles Frederick Cook).
2Bíblia de Estudos Aplicação Pessoal. (2004). Rio de Janeiro: CPAD, p. 1242; (comentários sobre Mateus 12:4-5).
3. DOUGLAS, J. D.; etal. (2006). O Novo Dicionário da Bíblia, 3.ª ed., São Paulo, SP: Vida Nova, p. 1180b; (verbete: sábado; editor da edição em português: Russell Philip Shedd).
4Catecismo da Igreja Católica, parte I, seção II, capítulo II, artigo III, §1 [582].
5. HERBERMANN, C. G. et al. (1913). The Catholic Encyclopedia, vol. XIII, New York: The Encyclopedia Press, Inc., p. 288b; (entry: "Sabbath". Nihil obstat: Remy Lafort; imprimatur: John Cardinal Farley).
6The Works of Jonathan Edwards, vol II, sermon XIII, Grand Rapids, MI: CCEL Staff Writer (2005*), p. 252; (*First publisehed 1834, revised and corrected by Edward Hickman).
7. "Brief Discourses: of the sabbath", june of 1829, art. 5. In: The Lutheran Magazine, vol. III (feb. 1829, to jan. 1830), Schoharie County, N.Y.: Printed by L. Cuthbert, p. 101-102; (Published by The Western Conference of Lutheran Ministers).
8. "Miscellanies". In: The Primitive Methodist Magazine, vol. VIII (january, 1855), London: Published by Thomas King, p. 356-359.
9. WEEKS, L. B. (2010). To Be a Presbyterian, revised edition, Louisville, KY: Geneva Press, p. 22-24; (first published by John Knox Press, 1983).

sábado, 2 de agosto de 2014

O Maior Santificador do Sábado - II

"Então, lhe disse Jesus: 'Levanta-te, toma o teu leito e anda'." (João 5:8 RA).
O restabelecido paralítico curvou-se para apanhar seu leito que era apenas uma esteira e um cobertor e, ao endireitar-se novamente com uma sensação de deleite, olhou em volta à procura de seu Libertador; mas Jesus desaparecera entre a multidão. O homem temeu não O reconhecer se tornasse a encontrá-Lo. Ao ir apressado no seu caminho com passo firme, desembaraçado, louvando a Deus e regozijando-se no vigor que acabava de obter, encontrou vários dos fariseus e contou-lhes imediatamente sua cura. Surpreendeu-se da frieza com que lhe ouviam a história.

De sobrancelhas carregadas, interromperam-no perguntando por que estava conduzindo seu leito no sábado. Lembraram-lhe severamente que não era lícito conduzir fardos no dia do Senhor. Em sua alegria, o homem esqueceu de que era sábado; todavia não sentiu nenhuma condenação por obedecer ao mandado de uma Pessoa que tinha o poder de Deus. Respondeu ousadamente: "Aquele que me curou, Ele próprio disse: 'Toma a tua cama, e anda'." (João 5:11 KJV). Perguntaram quem havia feito isso, mas o homem não lhes sabia dizer. Esses rabinos sabiam que unicamente Um Se mostrara capaz de realizar esse milagre; mas queriam prova direta de que era Jesus, a fim de condená-Lo como violador do sábado. Em seu juízo, não somente havia quebrado a lei em curar o enfermo no sábado, mas cometera sacrilégio em lhe mandar que levasse a cama. (...)

Jesus encontrou no templo o homem que foi curado. Este viera trazer uma oferta pelo pecado e também uma de ações de graças pela grande bênção recebida. Encontrando-o entre os adoradores, Jesus deu-Se a conhecer com a advertência: "Eis que já estás são; não peques mais, para que não te aconteça alguma coisa pior." (João 5:14 KJV). O enfermo restaurado regozijou-se extremamente por encontrar seu Libertador. E, ignorando a inimizade que existia contra Jesus, disse aos fariseus que o haviam interrogado, que era este O que o curara. E "por esta causa os judeus perseguiam a Jesus, e procuravam matá-Lo porque fazia estas coisas no sábado." (João 5:16 KJV). Então Jesus foi levado perante o Sinédrio para responder à acusação de violador do sábado. Houvessem os judeus sido nesse tempo uma nação independente, tal acusação lhes teria servido ao desígnio de O condenar à morte. [Mas] sua sujeição aos romanos impediu isso. Os judeus não tinham poder para infligir pena de morte, e as acusações apresentadas contra Cristo não tinham peso num tribunal romano. Entretanto, outros objetivos existiam e esperavam consegui-los. (...)

Quem quer que ousasse condenar as exigências dos rabinos, ou tentasse aliviar os fardos postos por eles sobre o povo, era considerado culpado não somente de blasfêmia, mas de traição. Nisso baseavam os rabis sua esperança de despertar suspeitas contra Cristo. Representavam-No como procurando subverter os costumes estabelecidos, causando assim divisão entre o povo e preparando o caminho para a completa subjugação dos romanos.

Mas os planos cuja execução esses rabis estavam elaborando tão zelosamente, originaram-se em outro concílio, que não era do Sinédrio. Depois de haver fracassado em seu desígnio de vencer a Cristo no deserto, arregimentara Satanás suas forças para Lhe opor ao ministério, contrapondo, se possível Sua obra. Aquilo que não conseguira realizar por esforço pessoal, direto, decidira efetuar por meio de estratégia. Tão depressa se retirara do conflito no deserto, em concílio com os seus anjos confederados, amadureceu os planos para cegar ainda mais o espírito do povo judeu a fim de não reconhecerem seu Redentor. Planejou operar por meio de seus agentes humanos do mundo religioso, imbuindo-os de sua própria inimizade contra o Campeão da verdade. Levá-los-ia a rejeitar a Cristo e a tornar-Lhe a vida o mais amarga possível, esperando desanimá-Lo em Sua missão. E os guias de Israel tornaram-se os instrumentos de Satanás em combater o Salvador.

Jesus viera para engrandecer a lei, e a tornar gloriosa (Isaías 42:21 cf. Mateus 5:17-20Lucas 16:17). Não haveria de lhe diminuir a dignidade, mas exaltá-la. Diz a Escritura: "Não desfalecerá nem Se apressará, até que estabeleça na Terra o juízo." (Isaías 42:4KJV). Ele viera para libertar o sábado daquelas enfadonhas exigências que o haviam tornado uma maldição em vez de bênção. Por isso escolhera o sábado para realizar a cura de Betesda. Poderia ter curado o enfermo igualmente em qualquer outro dia da semana; ou simplesmente tê-lo curado sem lhe dizer que levasse a cama. Isto, porém, não Lhe teria proporcionado a oportunidade que desejava. Um sábio desígnio guiava todos os atos de Cristo na Terra. Tudo quanto fazia era em si mesmo importante, bem como na lição que comunicava. Escolheu, entre os sofredores que se achavam junto ao tanque o pior caso para exercer Seu poder de cura, e pediu ao homem que levasse a cama através da cidade a fim de publicar a grande obra de que fora objeto. Isso daria lugar à questão do que era ou não era lícito fazer no sábado, e abriria o caminho para Ele condenar as restrições dos judeus quanto ao dia do Senhor, declarando vãs suas tradições.

Jesus lhes afirmou que a obra de aliviar os aflitos estava em harmonia com a lei do sábado. Estava em harmonia com os anjos de Deus que estão sempre descendo e subindo entre o Céu e a Terra para servir à humanidade sofredora. Jesus declarou: "Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também." (João 5:17 RA). Todos os dias são de Deus, para neles se executar Seus planos para com a raça humana. Fosse a interpretação dos judeus razoável, então o Senhor estaria em falta, visto ser Seu trabalho vivificar e manter toda criatura desde que lançou os fundamentos da Terra; então Aquele que declarou boa a Sua obra, e instituiu o sábado para comemorar-lhe o acabamento, deveria acabar com Seu labor e deter a incessante rotina do Universo.

Deveria Deus impedir o Sol de cumprir sua missão no sábado, impedir seus fecundos raios de aquecer a Terra e nutrir a vegetação? Deveriam os sistemas planetários permanecerem imóveis durante o santo dia? Ordenaria às fontes que se abstivessem de regar os campos e as florestas, mandaria às ondas do mar que detivessem seus incessantes movimentos? Deveriam o trigo e o milho deixar de crescer, e o maturante cacho adiar seu belo colorido? Não pode as árvores florescer, nem desabrochar as flores no sábado?

Se fosse assim, os homens deixariam de ter os frutos da terra e as bênçãos que tornam desejável a vida. A natureza deve continuar seu invariável curso. Deus não poderia por um momento deter Sua mão, do contrário o homem desfaleceria e viria a morrer. O homem também tem nesse dia uma obra a realizar. Deve-se atender às necessidades da vida, cuidar dos doentes, suprir as faltas dos necessitados. Não será tido por inocente o que negligenciar aliviar o sofrimento no sábado. O santo dia de repouso de Deus foi feito para o homem, e os atos de misericórdia se acham em perfeita harmonia com seu desígnio. Deus não deseja que Suas criaturas sofram uma hora de dor que possa ser aliviada no sábado, ou noutro dia qualquer. No entanto, as solicitações para com Deus são ainda maiores no sábado do que nos demais dias; seu povo deixa a ocupação diária e passa mais tempo em meditação e culto. (...)

A obra no Céu não cessa nunca, e o homem não deve descansar de fazer o bem. O sábado não se destina a ser um período de inútil inatividade. A lei proíbe trabalho secular no dia de repouso do Senhor; o labor que constitui o ganha-pão deve cessar; nenhum trabalho que vise prazer ou proveito mundanos é lícito nesse dia; mas como Deus cessou Seu labor de criar, repousou ao sábado e o abençoou, assim deve o homem deixar as ocupações da vida diária e devotar essas sagradas horas a um saudável repouso, ao culto e as boas obras. O ato de Cristo em curar o enfermo estava em perfeito acordo com a lei. Era uma obra que honrava o sábado.

Jesus afirmou ter direitos iguais aos de Deus, ao fazer uma obra da mesma maneira sagrada e do mesmo caráter daquela em que Se empenhava o Pai no Céu. Mas os fariseus ficaram ainda mais exasperados. Ele não somente quebrantara a lei, segundo seu modo de ver, mas dizendo que "Deus era Seu próprio Pai", declarara ser igual a Deus. Toda a nação judaica chamava a Deus de Pai, de maneira que não deveriam ter se enfurecido ao Cristo Se colocar na mesma relação com Ele. Mas acusaram-No de blasfêmia, mostrando que compreendiam que Ele fazia essa reivindicação no mais alto sentido.

Esses adversários de Cristo não tinham argumentos com que enfrentar as verdades que lhes fazia penetrar na consciência. Não podiam senão citar seus costumes e tradições, e estes eram fracos e nulos quando comparados com os argumentos que Jesus tirava da Palavra de Deus e da vida natural! Houvessem os rabis experimentado qualquer desejo de receber a luz, teriam-se convencido de que Cristo dizia a verdade. Porém, evitavam os pontos referentes ao sábado e procuraram incitar ódio contra Ele, por declarar ser igual a Deus. A fúria dos líderes não conhecia limites. Não houvessem temido o povo, os sacerdotes e rabis teriam matado a Jesus ali mesmo. Mas o sentimento popular em Seu favor era forte. Muitos reconheciam em Cristo o amigo que lhes curara as moléstias e confortara as dores, e justificavam-No em curar o doente de Betesda. De modo que os guias se viram obrigados, de momento, a restringir seu ódio. (...)

Os guias judaicos tinham estudado os ensinos dos profetas a respeito do reino do Messias; haviam-no feito, porém, não com o sincero desejo de conhecer a verdade, mas com o desígnio de encontrar provas para apoiar suas ambiciosas esperanças. Vindo Cristo de maneira contrária a sua expectativa, não O quiseram receber; e para se justificarem a si mesmos, procuravam demonstrar que era enganador. Uma vez postos os pés nesse caminho, fácil era a Satanás fortalecer-lhes a oposição a Cristo. As próprias palavras que deveriam ter sido recebidas como testemunho de Sua divindade, foram contra Ele interpretadas. Assim tornaram a verdade de Deus em mentira, e quanto mais diretamente lhes falava o Salvador em Suas obras de misericórdia, tanto mais decididos ficavam para resistir à luz. (...) Não se repete o mesmo em nossos dias? Não há muitos, mesmo guias religiosos, que estão endurecendo o coração contra o Espírito Santo, tornando impossível a si mesmos o reconhecer a voz de Deus? Não estão rejeitando a Palavra de Deus, a fim de conservar as próprias tradições?

Jesus sabia que os sacerdotes e rabis estavam decididos a tirar-Lhe a vida; todavia, expôs-lhes claramente Sua unidade com o Pai e Sua relação para com o Mundo. Os rabinos viram que a oposição contra Cristo não tinha desculpa; todavia, o ódio assassino não se extinguiu. Deles se apoderou o temor ao testemunhar o convincente poder que Lhe acompanhava o ministério, mas resistiram a Seus apelos, encerrando-se em trevas.

Fracassaram assinaladamente em derribar a autoridade de Jesus ou dEle alienar o respeito e a atenção do povo, do qual muitos ficaram convencidos por Suas palavras. Os próprios líderes haviam sentido sob profunda condenação ao apresentar-lhes à consciência sua culpa; todavia, isso apenas os instigou mais amargamente contra Ele. Estavam decididos a tirar-Lhe a vida. Enviaram por todo o país mensageiros a advertir o povo contra Jesus, como impostor. Mandaram espiões para O observar e relatar o que dizia ou fazia. O precioso Salvador achava-Se agora, sem dúvida nenhuma, sob a sombra da cruz.


Vídeo relacionado: O Sétimo Dia - Estudo 03
Texto de: WHITE, E. G. Desejado de Todas as Nações, O; São Paulo: CPB, sec. III, cap. 21, p. 201-213.


sábado, 26 de julho de 2014

O Maior Santificador do Sábado - I

"Por isso os judeus perseguiam Jesus: porque fazia tais coisas no sábado. Mas Jesus lhes respondeu: 'Meu Pai trabalha até agora e Eu também trabalho'. Então os judeus, com mais empenho, procuravam matá-Lo, pois, além de violar o sábado, Ele dizia ser Deus Seu próprio Pai, fazendo-Se, assim, igual a Deus." (João 5:16-18 BJ).
Estes versos tornaram-se uma espécie de estandarte para excêntricos dominguistas e anomistas(a) enquanto desempenham a jornada de acusar Jesus de transgressor do quarto mandamento. Na realidade, o propósito desta desprezível atitude é desmerecer o sábado através das falsas acusações farisaicas direcionadas a Ele. Assim, por meio deste artifício, os atuais caluniadores de Jesus tentam justificar a repulsa que mantêm contra a guarda sabática.

A deturpação interpretativa de João 5:16-18 segue o mesmo procedimento de outros casos: isola-se o texto bíblico de seu respectivo contexto e, ignora-se os fatos a ele vinculado. Deste modo, os atuais acusadores de Jesus, sem receio algum, classificam-O de pecador à medida que elaboram suas fábulas para satisfazer a "consciência".1 Três pontos fundamentais de João 5:16-18 são premeditadamente desconsiderados por tais indivíduos:
  1. As perseguições rabínicas contra Cristo e Seu ministério;
  2. As "coisas" que Cristo realizava para ser apontado como profanador do sábado; e,
  3. As duas acusações direcionadas a Ele, simultaneamente: transgressor do sábado (por causa de Suas curas) e blasfemador (por ter Se igualado a Deus). Ambas as incriminações partiram diretamente dos escribas e fariseus, perseguidores impetuosos de Cristo. Por que os professos cristãos, que utilizam a acusação de transgressor do sábado proveniente desses rabinos, não sustentam também a incriminação de blasfêmia que igualmente partiram deles?
Estes três fatores são ignorados porque revelam as falsidades atribuídas a Jesus e a Sua observância sabática. O apóstolo João ao descrever o episódio em pauta não afirmou que Jesus violava o sábado e que era enganosa a Sua relação com Deus, mas, relatou os repugnantes argumentos que os judeus apresentavam para matá-Lo. As mesmas acusações citadas em João 5:18 foram antecipadamente planejadas e apresentadas no sinédrio.2

"Então os judeus passaram a perseguir Jesus, porque Ele estava fazendo essas coisas no sábado." (João 5:16 NVI). Nenhuma das "coisas" praticadas por Jesus eram contrárias à observância sabática, visto que Ele dedicava-Se aos sábados exclusivamente para ensinar as Escrituras Sagradas e, socorrer física e espiritualmente os necessitados(b); muitas viagens foram realizadas para levar cura e esperança de vida aos pecadores. Seriam estas as "coisas" que Jesus deveria evitar nas horas sabáticas? Ao pratica-las transgrediu o quarto mandamento? De forma alguma. Não existe nenhum preceito bíblico que condene estas atividades aos sábados, pelo contrário, contra elas não há lei (Gálatas 5:22-23 cf. Isaías 58:13-14). Adiante, as verdades sobre João 5:16-18, que são fortemente desprezadas por serem "mais afiadas que qualquer espada de dois gumes" e capazes de "julgar os pensamentos e intenções do coração." (Hebreus 4:12-13).

Perseguição

Os líderes da nação de Israel tentaram anular a grande influência de Cristo diversas vezes e falharam. Então resolveram procurar algo que lhes permitissem condená-Lo a morte, e para isso espionavam e interrogavam-No intensamente (Lucas 6:6-7Lucas 11:53-54). As investidas para censurá-Lo publicamente tinha o intuito de eliminar Sua autoridade e prestígio diante do povo (Mateus 4:23-25Lucas 4:14); inúmeros planos foram maquinados para colocar a nação de Israel contra Ele. E ao concluírem que seus ataques não tinham base bíblica e apoio popular, mais ferozmente almejavam matá-Lo.

Naquela ocasião os rabinos já tinham amplas provas de que Cristo era o Messias prometido por Deus, pois conheciam: a visão do sacerdote Zacarias (Lucas 1:5-20 cf. Mateus 3:1-8); a chegada dos magos em Jerusalém (Mateus 2:1-6); o anúncio de Seu nascimento feito aos pastores (Lucas 2:8-18); Suas arguições sobre as Escrituras no templo aos 12 anos (Lucas 2:42-47); a declaração de João Batista confirmando que Ele era o Cordeiro de Deus (João 1:19-30); a justiça e milagres divinos que manifestavam-se em Sua vida (Mateus 12:18 cf. Isaías 42:1Lucas 6:17-19); e, as profecias que apontavam-No como o Ungido de Deus (Isaías 7:13-14Isaías 40:1-3Miqueias 5:2).

"Levanta-te, toma o teu leito e anda"
O ex-paralítico foi repreendido por ter levado o seu leito no sábado mas não foi castigado, a prioridade era matar a Jesus, o Autor do milagre (João 5:8-10). O imenso ódio dos escribas e fariseus era motivado tanto pela cura quanto pela ordem de carregar o leito no sábado, visto que estes atos contrariavam severamente a crença que defendiam. Esses rabinos além de não reconhecerem a Jesus como Filho de Deus e repudiarem Seus ensinos, tinham suas próprias leis que condenavam o Seu comportamento. Alicerçados nelas, eles restringiam de forma injustificável inúmeros procedimentos aos sábados, diversos métodos de tratar os enfermos eram proibidos; inúmeras regras de conduta tinham que ser obedecidas durante as horas sabáticas segundo as exigências rabínicas. Os propósitos do sábado foram completamente desvirtuados pelos fanáticos líderes da nação israelita.

Para se ter uma ideia das insanas acusações contra Jesus, a "Mishnah"(c), que contém interpretações, decisões judiciais, costumes e ritos religiosos organizados em 63 tratados, apresenta doze destes para lidar com as liturgias, tradições e proibições vinculadas às festividades e períodos de santa convocação, como o sábado; e o povo era obrigado a obedecê-los sistematicamente.3 Sobre essa obra literária, o missionário metodista David Hill declara: "O legalismo e a meticulosidade do judaísmo sobre o sábado podem ser analisados no Mišna Tractate Šabbat."4 E o ministro presbiteriano Thomas Walter Manson afirma que Jesus procedeu para salvar o judaísmo de si mesmo, dos numerosos temas sabáticos, tornando o sábado uma alegria (e, presumivelmente, salvou o judaísmo de seu legalismo e meticulosidade).5

A "Mishnah" traz uma lista de 39 categorias de atividades que não deveriam ser realizadas aos sábados. Outras obras como o "Livro dos Jubileus" e "Documentos de Damasco" também se dispuseram a discorrer sobre as coisas permitidas e proibidas nas horas sabáticas, nelas existem diretrizes peculiares que não se repetem em outras literaturas judias. No geral, existem 70 discussões prescrevendo severas regras de conduta que deveria ser adotadas durante o sábado.67 Adiante, alguns exemplos dessas orientações que ocasionaram os atritos entre Jesus e os fariseus:
Quanto ao transporte de carga aos sábados (cf. João 5:8-10): carregar um pão de grande dimensão em público era proibido, porém com ajuda de outra pessoa era permitido; carregar algo nos ombros era proibido, mas permitia-se transportá-lo no dorso da mão, no pé, na orelha, no cotovelo, ou seja, não seria culpado se carregasse tal objeto de maneira incomum; uma cama ou maca poderia ser transportada caso houvesse uma pessoa viva nela, porque a cama não era um objeto intrínseco a pessoa.
Quanto a cura aos sábados (cf. João 5:15-16): era proibido o tratamento de doenças em fase crônica, mas permitia-se tratar aquelas em estado agudo; proibia-se procedimentos de cura da pele como a raspagem (limpeza); era proibido jogar (por si mesmo) água fria sobre a mão e/ou pé deslocado, mas havia permissão para submeter a parte lesionada em água corrente; era proibido submeter um dente ao contato com o vinagre por motivo de dor, mas, poderia fazê-lo se o motivo era degustação ou alimentação; a região lombar, dolorida, não poderia ser submetida ao vinho ou vinagre, mas, era permitido ungir com óleo, deste que este não fosse originado de rosas.
Os escribas e fariseus defendiam ardorosamente estas e outras regras de mesma espécie, e se baseavam nelas para acusar a Cristo de transgressor do sábado. Diante disso, era inevitável o confronto entre eles e Cristo, que prontamente combatia às diversas orientações sem sentido difundidas pelos Seus oponentes. A obediência do ex-paralítico à ordem, "levanta-te, toma o teu leito, e anda" (João 5:8), denunciava publicamente a inutilidade e os transtornos que as tradições rabínicas acarretavam na santificação do sábado. Lembrando que o "leito" (a cama) em questão era formado por um tapete e um cobertor, os quais podiam ser facilmente dobrados e carregados.

Em outro episódio, Jesus umedeceu a terra com Sua saliva e passou nos olhos de um cego para posteriormente ordenar que ele os lavasse (João capítulo 9). Jesus poderia tão somente ter curado-o sem proceder desta maneira, porém aproveitou a ocasião para expor novamente as regras rabínicas que não proporcionavam nenhum benefício no dia de sábado e, consequentemente, sem proveito algum para o homem. Interessante observar ainda que, tanto o paralítico de Betesda quanto o homem cego de nascença possuíam patologias crônicas. Mas prossigamos com outras duas ocasiões em que houve fortes divergências entre os ensinos de Jesus e as tradições defendidas pelas leis judias.

Profanação do sábado sem culpa?
"Por aquele tempo, em dia de sábado, passou Jesus pelas searas. Ora, estando os Seus discípulos com fome, entraram(d) a colher espigas e a comer. Os fariseus, porém, vendo isso, disseram-Lhe: 'Eis que os Teus discípulos fazem o que não é lícito fazer em dia de sábado'. Mas Jesus lhes disse:
'Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros tiveram fome? Como entrou na casa de Deus, e comeram os pães da proposição, os quais não lhes era lícito comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes? Ou não lestes na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? (...)" (Mateus 12:1-5 RA).
A acusação dos fariseus registrada em Mateus 12:2 esta alicerçada nas regras rabínicas que proíbem aos sábados, independente do motivo, colher qualquer parte de uma planta e joeirar (separar o grão, por exemplo, de trigo ou cevada).8 Estas radicais proibições negligenciam diretamente um dos princípios básicos da observância sabática: promover a bondade e a misericórdia. O sábado não foi instituído para ser um obstáculo ao suprimento das necessidades básicas das criaturas, tais como o bem-estar e a manutenção da vida; mas, para ser um período especial de consagração a Deus livre das atividades seculares (Neemias 13:15-22 cf. Atos 16:13).

E, fundamentado neste princípio da observância sabática, Jesus citou o exemplo de Davi que comeu os pães da proposição, considerados santíssimos e restritos aos sacerdotes (Mateus 12:3-4 cf. I Samuel 21:1-6Levítico 24:5-9). A analogia feita por Jesus, entre a atitude dos discípulos e Davi, estabelece o seguinte questionamento: se os pães destinados para o uso santo foram concedidos a Davi para saciar a sua fome, por que os discípulos não poderiam utilizar o período santo do sábado para colherem grãos com o mesmo objetivo?

Ademais, Davi e seu exército não podiam sequer tocar nos pães santos, restrição que não era aplicada aos grãos durante o santo dia de sábado. Deve-se observar também que, o caso de Davi contrariou diretamente regras específicas da lei de Moisés, enquanto que a atitude dos discípulos contrariou regras rabínicas sem valor algum para Deus. De qualquer forma, tanto o pão sagrado da proposição, quanto o tempo sagrado do sábado foram usados para suprir a necessidade humana (cf. Marcos 2:27).

E para expor ainda mais a presunção farisaica, Jesus mencionou as diversas atividades que os sacerdotes exerciam no templo, sobretudo aos sábados quando os serviços eram dobrados (Números 28:1-10). A pergunta em Mateus 12:5 não é uma alusão de que os sacerdotes transgrediam o sábado, o intuito do questionamento de Jesus foi despertar a mente dos fariseus para a seguinte situação: se os discípulos eram culpados de transgressão do sábado pela simples atitude de colher alguns grãos para saciar a fome, o que dizer dos diversos trabalhos sacerdotais realizados também neste dia?

A colheita realizada pelos discípulos e os serviços sacerdotais não violaram o sábado, pois os sacerdotes exerciam no templo trabalhos de natureza santa que atendiam aos propósitos da observância sabática ao suprir necessidades espirituais, como direcionar o pecador ao perdão e a salvação de Deus. Igualmente, os discípulos atuando com Cristo, que é "maior que o templo" (Mateus 12:6), não transgrediram o sábado ao fazer a colheita dos grãos para se alimentarem, pois esta atitude atendia uma necessidade básica deles enquanto trabalhavam ao lado de Cristo em favor da salvação do homem (João 5:17). Soma-se a isso o fato de não haver nenhuma proibição direta ou indireta ao procedimento dos discípulos, pelo contrário, além de beneficiados pelo quarto mandamento da lei de Deus, eles também foram favorecidos por regras específicas da lei de Moisés: "Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas da sua colheita. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês." (Levítico 23:22 NVI cf. Deuteronômio 24:19). "Se entrarem na plantação de trigo do seu próximo, poderão apanhar espigas com as mãos, mas nunca usem foice para ceifar o trigo do seu próximo." (Deuteronômio 23:25 NVI).

O ensino transmitido em Mateus 12:1-8 demonstra que o sábado não prevalece sobre as necessidades primárias da humanidade mas, que ele caracteriza-se por ser um tempo especial de Deus destinado a promover benefícios ao homem (Mateus 12:12 cf.Isaías 56:1-8). O sábado é um período em que o auxílio ao próximo deve ser exercido de acordo com as palavras de Cristo: "Desejo misericórdia, não sacrifícios." (Mateus 12:7 NVI). Nesta questão, os fariseus ao contemplarem a carência alimentar dos discípulos renegaram, também, uma prática comum entre os judeus: na sexta-feira costumava-se preparar uma determinada porção adicional de refeição para atender uma visita ou um eventual convite no sábado, era uma hospitalidade bem conhecida.9No entanto, os fariseus optaram em manter o orgulho e satisfazer suas pífias regras do que conceder auxílio ao próximo. Vergonhosamente praticaram o comportamento obscuro da parábola do "bom samaritano" (Lucas 10:25-37).

"É lícito curar no sábado?"
"Achava-se ali um homem que tinha uma das mãos ressequida; e eles, então, com o intuito de acusá-Lo, perguntaram a Jesus: 'É lícito curar no sábado?' Ao que lhes respondeu: 'Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado, esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo, é lícito, nos sábados, fazer o bem'." (Mateus 12:10-12 RA).
Jesus além de demonstrar que era lícito curar no sábado, expôs a violação que os rabinos cometiam contra a própria lei deles que dizia: "(...) se um animal cair no fosso ou na vala, não se deve removê-lo no sábado."10 Jesus após questioná-los sobre esta regra, um silêncio desconcertante se fez presente. Ele sabia que Seus adversários não seguiam-na, e que tampouco fazia parte das Escrituras. Enquanto falsamente incriminavam o próximo a respeito do sábado, eram eles que verdadeiramente transgrediam o quarto mandamento; além de violarem suas próprias normas fúteis. Os escribas e fariseus não podiam apresentar pela Bíblia nenhum preceito que proibisse o auxílio que Jesus concedia aos enfermos nos sábados, apenas valiam-se de textos alheios à ela para embasar suas convicções.

Considerações Finais
A vida de Jesus neste mundo foi irrepreensível, Ele desenvolveu e demonstrou caráter íntegro em cada ação que realizava. Seu inigualável elo com Deus e Sua inquestionável fidelidade com a lei eram letais para aqueles que O perseguiam (João 15:10 cf. I João 2:4). Inutilmente, "os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam procurando depoimentos contra Jesus, para que pudessem condená-Lo à morte, mas não encontravam nenhum. Muitos testemunharam falsamente contra Ele, mas as declarações deles não eram coerentes." (Marcos 14:55-56 NVI). Em contrapartida, o profeta Isaías já havia verdadeiramente testemunhado o comportamento reprovável dos opositores de Cristo:
"O Senhor disse: 'Visto que este povo se aproxima de Mim e com a sua boca e com os seus lábios Me honra, mas o seu coração está longe de Mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá'." (Isaías 29:13-14 RA).
E o próprio Cristo revelou o cumprimento da referida profecia:
"(...) Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: 'Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. E em vão Me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.' Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. (...) Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição." (Marcos 7:6-9 RA).
E como mencionado no início deste estudo, esses hipócritas e fanáticos rabinos possuem seguidores fiéis nos dias atuais, seus pupilos dão sequência às falsas acusações contra Cristo, "dia e noite" (Apocalipse 12:10Apocalipse 12:17João 8:44).


Vídeo relacionado: O Sétimo Dia - Estudo 03
a. Indivíduos que rejeitam os padrões de conduta determinados pela lei de Deus; aqueles que defendem que o comportamento humano não deve se subordinar às regras de uma lei, sobretudo as divinas.
c. Obra judia e parte do Talmude. A Mishnah não propõem criar novas leis, mas relatar os costumes e juízos judaicos. Nela há questões da época de Jesus e da era pós-Templo, período que iniciou com a destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C.
d. Os adversários do sábado valem-se do verbo "entrar", utilizado indevidamente pela versão "João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada" (RA): "entraram a colher espigas", para capciosamente alegarem que os discípulos realizaram serviço braçal para abrir caminho pelo interior das searas e, assim, facilitar o trajeto de Jesus. Esta vil alegação é facilmente desfeita pelos seguintes fatos: 1. A flexão verbal "entraram" usada pela "RA" é uma tradução extremamente equivocada do verbo grego "archomai", que significa: começar, iniciar; proceder do começo; ser o primeiro a realizar algo; ser o principal em algo. E há diversas versões bíblicas que mantêm o sentido original de Mateus 12:1 ao traduzir corretamente o termo "archomai"; por exemplo: "Naquela ocasião Jesus passou pelas lavouras de cereal no sábado. Seus discípulos estavam com fome e começaram [archomai] a colher espigas para comê-las." (Nova Versão Internacional, 2001); "En aquel tiempo iba Jesús por los sembrados en un día de reposo; y Sus discípulos tuvieron hambre, y comenzaron [archomai] a arrancar espigas y a comer." (Reina Valera, 1960); "At that season Jesus went on the sabbath day through the grainfields; and His disciples were hungry and began [archomai] to pluck ears and to eat." (American Standard Version, 1901). 2. O texto afirma que os discípulos começaram a colher espigas e delas alimentaram-se motivados pela fome, e para isso utilizaram tão somente as mãos pois a eles era proibido o uso de qualquer ferramenta, o que intensifica a inviabilidade de abrir estradas pelos campos de cereal (searas): "Se entrarem na plantação de trigo do seu próximo, poderão apanhar espigas com as mãos, mas nunca usem foice para ceifar o trigo do seu próximo." (Deuteronômio 23:25 NVI). Além de desconhecerem estas informações, será que os rivais do quarto mandamento imaginam que os discípulos pregavam o evangelho munidos de instrumento(s) de colheita, especialmente aos sábados? 3. O terceiro motivo que desmente os opositores do sábado reside no fato de que, se os discípulos tivessem adentrado as searas para construir rotas de passagem, fatalmente seriam indiciados por invasão e destruição de propriedade privada (Deuteronômio 23:25 cf. Êxodo 22:5-6).
1. Romanos 3:20; Romanos 7:7; Romanos 4:15; Tiago 2:8-13; I João 3:4.
2. Marcos 3:1-6 cf. Lucas 11:53-54; João 9:16; Marcos 14:60-64.
3. "Mishna". (2010). Encyclopædia Britannica, Chicago: Encyclopædia Britannica; COHN-SHERBOK, D. (2003). Judaism: History, Belief and Practice, New York: Routledge, p. 399, 495; GERSH, H. (1984). Mishnah: The Oral Law, New Jersey: Behrman House Inc., p. 7-8.
4. HILL, D. (1972). The Gospel of Matthew, Grand Rapids: Eerdmans, p. 209.
5. MANSON, T. W. The sayings of Jesus: as recorded in the Gospels according to St. Matthew and St. Luke, London: SCM Press, 1949.
6. SALDARINI, A. J. (1997). Comparing the Traditions: New Testament and Rabbinic Literature. In: Bulletin for Biblical Research 7, (Institute for Biblical Research), p. 197-199; Lawrence Schiffman, The Halakhah at Qumran, Leiden: Brill, 1975.
7. NEUSNER, J. (1981). Judaism: The Evidence of the Mishnah, Chicago: University of Chicago Press, p. 55-59.
8Babylonian Talmud: Tractate Shabbath, folio 73; Mishnah: Tractate Shabbat, 7:3, 7:6.
9. "Sabbath". (1906). The Jewish Encyclopedia, vol. X, New York, N.Y.: KTAV Publishing House, Inc., p. 594b (Friday Prepatation).
10Damascus Document, col. 11:13b-14a. Too in: 4Q256, fragment 6, lines 5-6.