sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Obediência de Caim e Abel

Caim e Abel, filhos de Adão, diferiam grandemente em caráter. Abel tinha um espírito de fidelidade para com Deus; via justiça e misericórdia nos cuidados que o Criador tinha com a raça decaída, e com gratidão aceitou a esperança da redenção. Caim, porém, acariciava sentimentos de rebeldia, murmurava contra Deus por causa da maldição pronunciada sobre a Terra e sobre o gênero humano em virtude do pecado de Adão. Permitiu que a mente se deixasse levar pelo mesmo conduto que determinara a queda de Satanás, condescendendo com o desejo de exaltação própria, pondo em dúvida a justiça e autoridade divinas.

Esses irmãos foram provados, assim como foi Adão antes deles, para mostrar se confiariam na Palavra de Deus e obedeceriam à mesma. Estavam cientes da providência tomada para a salvação do homem, e compreendiam o sistema de ofertas que Deus ordenara. Sabiam que nessas ofertas deveriam exprimir fé no Salvador a quem tais ofertas tipificavam, e ao mesmo tempo reconhecer a sua total dependência dEle, para o perdão; e sabiam que, conformando-se assim ao plano divino para a sua redenção, estavam a dar prova de sua obediência à vontade de Deus. (...)


Os dois irmãos de modo semelhante construíram seus altares, e cada qual trouxe uma oferta. Abel apresentou um sacrifício do rebanho, de acordo com as instruções do Senhor. "E atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta." (Gênesis 4:4 KJV). Lampejou fogo do Céu, e consumiu o sacrifício. Mas Caim, desrespeitando o mandado direto e explícito do Senhor, apresentou apenas uma oferta de frutos. Não houve sinal do Céu para mostrar que era aceita. Abel instou com seu irmão para aproximar-se de Deus da maneira divinamente prescrita; mas seus rogos apenas tornaram Caim mais decidido a seguir sua própria vontade. Sendo mais velho, achava que não lhe condizia ser aconselhado por seu irmão, e desprezou o seu conselho.

Caim veio perante Deus com íntima murmuração e incredulidade, com respeito ao sacrifício prometido e necessidade de ofertas sacrificais. Sua dádiva não exprimia arrependimento de pecado. Achava, como muitos agora, que seria um reconhecimento de fraqueza seguir exatamente o plano indicado por Deus. (...) Quanto ao nascimento e instrução religiosa, esses irmãos eram iguais. Ambos eram pecadores e ambos reconheciam o direito de Deus à reverência e adoração. Segundo a aparência exterior, sua religião era a mesma até certo ponto; mas, além disto, a diferença entre os dois era grande.

"Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim." (Hebreus 11:4 KJV). Abel apreendeu os grandes princípios da redenção. Viu-se como um pecador, e viu o pecado e sua pena de morte entre sua alma e a comunhão com Deus. Trazia morta a vítima, aquela vida sacrificada, reconhecendo assim as reivindicações da lei, que fora transgredida. Por meio do sangue derramado olhava para o futuro sacrifício, Cristo a morrer na cruz do Calvário; e, confiando na expiação que ali seria feita, tinha o testemunho de que era justo, e de que sua oferta era aceita. Caim tivera, como Abel, a oportunidade de saber e aceitar estas verdades. Não foi vítima de um intuito arbitrário. Um irmão não fora eleito para ser aceito por Deus, e o outro para ser rejeitado. Abel escolheu a fé e a obediência; Caim, a incredulidade e a rebeldia. Nisto consistia toda a questão. (...)

A verdadeira fé, que confia inteiramente em Cristo, manifestar-se-á pela obediência a todos os mandamentos de Deus. Desde o tempo de Adão até o presente, o grande conflito tem sido com referência à obediência à lei de Deus. Em todos os séculos houve os que pretendiam ter direito ao favor de Deus, mesmo enquanto estavam a desatender algumas de Suas ordens. Mas as Escrituras declaram que pelas obras a "fé foi aperfeiçoada", e que, sem as obras da obediência, a fé "é morta" (Tiago 2:14-26). Aquele que faz profissão de conhecer a Deus, "e não guarda os Seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade" (I João 2:4 KJV).

Quando Caim viu que sua oferta foi rejeitada, ficou irado com o Senhor e com Abel; ficou irado de que Deus não aceitasse o substituto do homem em lugar do sacrifício divinamente ordenado, e irado com seu irmão por preferir obedecer a Deus a unir-se em rebelião contra Ele. Apesar do descaso de Caim pelo mandado divino, Deus não o deixou entregue a si; mas condescendeu em arrazoar com o homem que tão sem razão se mostrara. E o Senhor disse a Caim: "Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?" (Gênesis 4:6 KJV). Por meio de um mensageiro angélico foi transmitida a advertência divina: "Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E, se não fizeres bem, o pecado jaz à tua porta. (...)" (Gênesis 4:7 KJV). A escolha dependia unicamente de Caim. Se confiasse nos méritos do Salvador prometido, e obedecesse às ordens de Deus, desfrutaria de Seu favor. Mas, se persistisse na incredulidade e transgressão, não teria motivos de queixa por ser rejeitado pelo Senhor.

Mas, em vez de reconhecer o seu pecado, Caim continuou a queixar-se da "injustiça" de Deus, e acalentar inveja e ódio a Abel. Rancorosamente censurou seu irmão, e tentou arrastá-lo à controvérsia com respeito ao trato de Deus para com eles. Com mansidão, se bem que destemida e firmemente, Abel defendeu a justiça e bondade de Deus. Indicou o erro de Caim, e procurou convencê-lo de que a falta estava com ele. Acentuou a compaixão de Deus ao poupar a vida de seus pais, quando Ele os poderia ter punido com morte instantânea, e insistiu em que Deus os amava, ou então não haveria dado a Seu Filho, inocente e santo, para sofrer a pena em que eles tinham incorrido. Tudo isto fez com que a ira de Caim mais se acendesse.

A razão e a consciência lhe diziam que Abel tinha razão; mas ele estava enraivecido de que aquele que estivera acostumado a atender seus conselhos pretendesse agora discordar dele, e de que não pudesse ganhar simpatia em sua rebeldia. No furor de seu ódio, matou o irmão.

Caim odiou e matou o irmão, não por qualquer falta que Abel houvesse cometido, mas "porque as suas obras eram más, e as de seu irmão justas." (I João 3:12 KJV). Assim, em todos os tempos os ímpios têm odiado os que eram melhores do que eles. A vida de Abel, de obediência e inabalável fé, era para Caim uma reprovação perpétua. "Todo aquele que faz o mal aborrece a luz, e não vem para a luz, para que suas obras não sejam reprovadas." (João 3:20 KJV cf. Provérbios 28:4). Quanto mais brilhante for a luz celestial que se reflete no caráter dos fiéis servos de Deus, tanto mais claramente se revelam os pecados dos ímpios, e mais decididos serão seus esforços para destruir os que lhes perturbam a paz.

O assassínio de Abel foi o primeiro exemplo da inimizade que Deus declarou que existiria entre a serpente e a semente da mulher - entre Satanás e seus súditos, e Cristo e Seus seguidores. Por meio do pecado do homem, Satanás ganhara domínio sobre a raça humana, mas Cristo a habilitaria a sacudir este jugo. Quando pela fé no Cordeiro de Deus uma alma renuncia o serviço do pecado, acende-se a ira de Satanás(a).

A vida santa de Abel testificava contra a pretensão de Satanás de que é impossível ao homem guardar a lei de Deus. Quando Caim, movido pelo espírito do maligno, viu que não podia dominar Abel, irou-se de tal maneira que lhe destruiu a vida. E onde quer que haja alguém que esteja pela reivindicação da justiça da lei de Deus, o mesmo espírito se manifestará contra ele. É o espírito que através de todos os séculos acendeu a fogueira ardente para os discípulos de Cristo. Essas crueldades amontoadas sobre os seguidores de Jesus são instigadas por Satanás e sua hoste, porque não podem eles obrigá-los a sujeitar-se ao seu domínio. É a cólera de um adversário vencido. Todo o mártir por Jesus morreu como vencedor. Diz o profeta: "Eles o venceram [aquela 'antiga serpente, chamada o diabo, e Satanás'] pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte." (Apocalipse 12:9-11 KJV).

Caim, o homicida, logo foi chamado para responder por seu crime. "E disse o Senhor a Caim: 'Onde está Abel', teu irmão? E ele disse: 'Não sei: sou eu guardador de meu irmão?'" (Gênesis 4:9 KJV). Caim tinha avançado tanto no pecado que perdera a intuição da contínua presença de Deus e de Sua grandeza e onisciência. Assim recorreu à falsidade para esconder a sua culpa.

De novo diz o Senhor a Caim: "Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a Mim desde a terra." (Gênesis 4:10 KJV). Deus dera a Caim oportunidade para confessar seu pecado. Tivera tempo para refletir. Compreendera a enormidade da ação que praticara, e da falsidade que proferira para a ocultar; mais ainda, foi rebelde, e a sentença não mais se adiou; a voz divina que tinha sido ouvida em solicitações e admoestações, pronunciou as terríveis palavras: "E agora maldito és tu desde a terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue do teu irmão. Quando lavrares a terra, não te dará mais a sua força; fugitivo e vagabundo serás na Terra." (Gênesis 4:11-12 KJV).

Apesar de Caim pelos seus crimes haver merecido a sentença de morte, um Criador misericordioso ainda lhe poupou a vida, e concedeu-lhe oportunidade para o arrependimento. Mas Caim viveu apenas para endurecer o coração, para alentar a rebelião contra a autoridade divina, e tornar-se o chefe de uma linhagem de pecadores ousados e perdidos. Esse único apóstata, dirigido por Satanás, tornou-se o tentador para outros; e seu exemplo e influência exerceram uma força desmoralizadora, até que a Terra se corrompeu e se encheu de violência a ponto de reclamar a sua destruição (Gênesis 6:12-13 cf. Isaías 24:4-6).

Poupando a vida do primeiro homicida, Deus apresentou diante de todo o universo uma lição que dizia respeito ao grande conflito. A tenebrosa história de Caim e seus descendentes foi uma ilustração do que teria sido o resultado de permitir ao pecador viver para sempre, para prosseguir com sua rebelião contra Deus (cf. Gênesis 6:3;Romanos 8:7). A paciência de Deus apenas tornou o ímpio mais ousado e desafiador em sua iniquidade. Quinze séculos depois de pronunciada a sentença sobre Caim, o universo testemunhou os frutos de sua influência e exemplo, no crime e corrupção que inundaram a Terra. Tornou-se manifesto que a sentença de morte pronunciada contra a raça decaída, pela transgressão da lei de Deus, era não somente justa mas misericordiosa. Quanto mais vivessem os homens em pecado, mais perdidos se tornariam. A sentença divina, abreviando uma carreira de desenfreada iniquidade, e livrando o mundo da influência dos que se tornaram endurecidos na rebeldia, era uma bênção e não maldição.

Satanás está constantemente em atividade, com intensa energia e sob mil disfarces para representar falsamente o caráter e governo de Deus. Com planos extensos e bem organizados, e com poder maravilhoso está ele a agir para conservar sob seus enganos os habitantes do mundo (II Coríntios 11:14). Deus, o Ser infinito e todo sabedoria, vê o fim desde o princípio, e, ao tratar com o mal, Seus planos foram de grande alcance e compreensivos. Foi o Seu intuito não somente abater a rebelião, mas demonstrar a todo o universo a natureza da mesma. O plano de Deus estava a desdobrar-se, mostrando tanto Sua justiça como Sua misericórdia, e amplamente reivindicando Sua sabedoria e justiça em Seu trato com o mal.

Os santos habitantes de outros mundos estavam a observar com o mais profundo interesse os acontecimentos que se desenrolavam na Terra. Na condição do mundo que existira antes do dilúvio, viram o exemplo dos resultados da administração que Lúcifer se esforçara por estabelecer no Céu, rejeitando a autoridade de Cristo, e pondo à parte a lei de Deus. Naqueles arrogantes pecadores do mundo antediluviano, viram os súditos sobre os quais Satanás exercia domínio. Os pensamentos do coração dos homens eram somente e continuamente maus (Gênesis 6:5 cf. Romanos 8:5-8). Cada emoção, cada impulso e imaginação estava em conflito com os divinos princípios de pureza, paz e amor. Isto foi um exemplo da terrível depravação resultante da astúcia de Satanás, de remover das criaturas de Deus a restrição de Sua santa lei.

Pelos fatos manifestos no andamento do grande conflito, Deus demonstrará os princípios de Suas regras de governo, que foram falsificadas por Satanás e por todos os que ele enganou(b). Sua justiça será finalmente reconhecida pelo mundo inteiro, embora este reconhecimento haja de se fazer demasiado tarde para salvar os rebeldes. Ver-se-á que todos os que abandonaram os preceitos divinos colocaram-se ao lado de Satanás, em luta contra Cristo. Quando o príncipe deste mundo for julgado, e todos os que com ele se uniram participarem de sua sorte, o universo inteiro, como testemunha da sentença, declarará: "Justos e verdadeiros são os Teus caminhos, ó Rei dos santos." (Apocalipse 15:3 KJV).


Texto extraído de: WHITE, E. G. Patriarcas e Profetas, São Paulo: CPB, sec. I, cap. V, p. 71-79.
a. Apocalipse 12:17 cf. I João 3:4; Romanos 4:15; Romanos 7:7.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A Marca do Mal

Tanto a "besta" quanto a sua "imagem"(a) compartilham um dogma que: as mantêm fortemente unidas; submete os homens aos seus enganos e, se opõe ao selo de Deus - o sábado do quarto mandamento(b). Dentre os diversos erros disseminados por elas, somente o ensino da observância dominical possui estas peculiaridades reunidas, tornando-a a marca ou a principal distinção das instituições que retêm este falso "dia do Senhor"(c). Este ponto doutrinário, defendido por elas, demonstra a tentativa prepotente de usurpar a autoridade de Deus e de desviar a verdadeira adoração destinada a Ele.

A Bíblia em toda a sua extensão ensina que, unicamente o sétimo dia da semana foi santificado e abençoado por Deus, e destina-se a atender exclusivamente aos Seus propósitos. Porém, o homem em busca de satisfazer seus interesses particulares confronta constantemente as orientações de seu Criador (Romanos 8:5-9 cf. Jeremias 6:16). Deus nunca modificou qualquer mandamento do Decálogo e muito menos concedeu autoridade para que alguém assim procedesse. Apesar disso, a "besta e a sua imagem" proclamam com soberba que o domingo substituiu o sábado na lei de Deus, e conclamam que esta ultrajante transgressão seja obedecida.

A terceira mensagem angélica adverte quanto a aceitação desse falso dia de descanso dizendo: "Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da Sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro." (Apocalipse 14:9-10 RA).

A "marca" ou "sinal" da besta não é um chip, um código de barra, um símbolo místico ou o número 666 fixado no corpo. Estas fantasiosas especulações não são sustentadas pela Bíblia. Receber a "marca da besta" (a marca do sistema religioso apostatado) indica que a pessoa através de suas próprias convicções (de forma consciente - "na fronte"), ou, motivada pela conveniência de sua vida (de suas ações - "sobre a mão") reconhece que a "besta e sua imagem" possuem autoridade para substituir o sétimo dia da semana descrito no quarto mandamento, pelo primeiro dia (domingo). Aceitar esta mudança é consequentemente render à elas obediência e adoração. Ressaltando que, ninguém receberá essa marca sem antes conhecer plenamente as verdades sobre estas questões; mas receberá aquele que, embora ciente deste assunto, resolva adotar o falso dia de descanso.
"Quando esta questão for claramente colocada diante do mundo, aqueles que rejeitam o memorial divino da Criação - o sábado bíblico - escolhendo adorar e honrar o domingo - mesmo depois de ter pleno e cabal conhecimento de que este não é o dia apontado por Deus para a adoração - receberão a 'marca da besta'. Esta é a marca da rebelião; a besta afirma(d) que o fato dela haver alterado o dia de adoração é uma prova de sua autoridade em modificar a lei de Deus."1
E este conflito terá o seu auge quando as igrejas protestantes que defendem a guarda dominical, lideradas pela igreja de Roma (ICAR), exigirem que o Estado utilize seu poder para fazer valer de forma obrigatória a observância do domingo mediante lei civil, com punição aos infratores (Apocalipse 13:11-18), assim como já ocorrera no passado(e).

Nunca houve uma terceira opção e não haverá nos eventos finais deste mundo. "Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-O; se é Baal, segui-o." (I Reis 18:21 RA). Assim como o remanescente fiel consolida sua lealdade a Deus e recebe o Seu selo (Apocalipse 7:2-3), em contraposição existem os que firmam-se na "besta e na sua imagem" e recebem o seu respectivo selo. O foco desta questão não centraliza-se meramente na escolha de um determinado dia, mas envolve a fidelidade para com a vontade de Deus expressa claramente em Sua lei (Êxodo 20:3-17 cf. Mateus 19:16-19Lucas 16:17), sobretudo no quarto mandamento, o centro do conflito final (Apocalipse 14:7 cf. Êxodo 20:11Apocalipse 14:12). No momento em que Lúcifer se tornou Satanás, este idealizou obter para si mesmo obediência e adoração das criaturas de Deus, e nos últimos momentos que lhe resta, fará isto com todo empenho auxiliado por seus agentes.2


a. A expressão "imagem da besta" refere-se a organização religiosa que será formadada por diversas igrejas protestantes e atuará segundo os mesmos princípios da "besta" descrita em Apocalipse 13:1-8. E, assim como esta última utilizava o poder político do(s) Estado(s) para impor suas doutrinas, igualmente ocorrerá com a sua "imagem". Acesse: Babilônia Denuncia - IIA Imagem do Mal.
b. Acesse: O Selo de Deus
c. Acesse: O "dia do Senhor"
1Nisto Cremos. (2003). 7.ª ed., São Paulo: CPB, cap. 12, p. 231.
2. Efésios 6:11-12; I João 2:1-4 cf. João 8:44; II Tessalonicenses 2:3-4 cf. Isaías 14:13-14, Ezequiel 28:12-18, Apocalipse 12:17.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Imagem do Mal

Após o seu banimento do Céu, Satanás iniciou sua jornada em busca de novos adeptos e, infelizmente, encontrou na Terra receptividade para os seus enganos. Seu intuito a partir de então foi, além de usurpar o domínio deste mundo, anular a influência de Deus no homem e estabelecer a sua personalidade orgulhosa e ambiciosa.

Através da própria humanidade, Satanás tem disseminado o desprezo a Deus (II Tessalonicenses 2:3-4), deturpado continuamente os ensinos das Sagradas Escrituras (II Pedro 3:14-16) e, perseguido os que não se envolvem em suas artimanhas (Apocalipse 12:17). Estas coisas conduzem a terceira mensagem angélica a advertir severamente todo aquele que se submete as orientações desse anjo maligno:
"Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da Sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos(a) (...)" (Apocalipse 14:9-12 RA).
A mensagem do primeiro anjo proclama o evangelho eterno e convida à restauração da verdadeira adoração a Deus como Criador; o segundo anjo adverte contra todas as formas de adoração originadas em filosofias e tradições humana e, finalmente, o terceiro anjo proclama o mais solene aviso contra a adoração da "besta e de sua imagem"; que em última análise, envolve todo aquele que rejeita o evangelho da justificação pela fé(b).

Reflexo do mal

A "besta" citada em Apocalipse 14:9 (cf. Apocalipse 13:1-8) representa a igreja de Roma que se uniu ao Estado e dominou o mundo cristão durante vários séculos(c). Paulo menciona este poder religioso repressor como o "homem da iniquidade" (II Tessalonicenses 2:3-10) e Daniel cita-o por meio de um "chifre pequeno"(d) (Daniel 7:8;Daniel 7:24-25). Por sua vez, a "imagem da besta" simboliza a organização religiosa apóstata que será formada pelas igrejas protestantes, e que terá forte participação do Estado. Esta união ocorrerá quando as referidas igrejas tiverem abandonado o verdadeiro princípio da Reforma para satisfazer seus próprios interesses. Elas exigirão através da influência e força do Estado que os seus falsos ensinos, herdados da igreja de Roma, sejam seguidos. Esta união será a perfeita "imagem da besta", e a sua atuação será semelhante àquela praticada no passado pela igreja de Roma (ICAR). Assim, a "besta" (igreja romana) e a sua "imagem" (igrejas protestantes apostatadas) atuarão juntas e amparadas pelo poder civil (Estado) para impor incondicionalmente os seus ensinos e perseguir qualquer posicionamento contrário aos seus propósitos.

A mensagem do terceiro anjo proclama a mais solene e assustadora advertência da Bíblia. Ela revela que aqueles que se submeterem à autoridade humana durante a crise final da Terra, estarão adorando a "besta e a sua imagem" em vez de estar adorando a Deus. Durante esse conflito final duas classes distintas se desenvolverão. Uma dessas classes defenderá o evangelho das maquinações humanas e adorará a "besta e a sua imagem", trazendo sobre si mesma as mais terríveis consequências. A outra classe, em acentuado contraste, viverá de acordo com o verdadeiro evangelho e guardará "os mandamentos de Deus e a fé em Jesus" (Apocalipse 14:12).

"Aqui está a perseverança dos santos"

Satanás fará o possível para obrigar os remanescentes a unirem-se ao movimento apostatado, e para isso "ele fará uso de todas as formas de engano" (II Tessalonicenses 2:10 NVI cf. Mateus 24:23-24); não prevalecendo seus artifícios, ameaçará com isolamento e morte (Apocalipse 13:15). Entretanto, manterão a integridade até o fim aqueles que alicerçaram a vida em Jesus. Nessa hora tenebrosa os filhos de Deus se sustentarão fortemente na Bíblia e não renderão homenagem a ninguém, exceto a Cristo (Apocalipse 15:2-3).

A fé em Jesus e a obediência aos mandamentos de Deus são dois aspectos importantes na vida cristã.1 Estes mandamentos são reflexos do caráter de Deus, pois expõem a norma de Sua justiça (Isaías 51:4Romanos 7:12), e Ele deseja que cada pessoa retenha os preceitos de Sua lei (Hebreus 10:15-17Eclesiastes 12:13). No entanto, esse objetivo é dificultado pela condição pecaminosa que domina cada indivíduo, pois "a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus, nem pode fazê-lo." (Romanos 8:7 NVI). Apesar de seus melhores esforços o homem continuamente está destituído da glória de Deus (Romanos 3:23). Contudo, Jesus veio para capacitar e restaurá-lo à Sua imagem. Veio para mostrar como é o Pai, ampliando neste sentido o significado de Sua lei.2 Cada pessoa pode guardar os preceitos de Deus unicamente por meio do poder de Cristo, e assim refletir a imagem divina (Romanos 8:3-4). A igreja remanescente honra os mandamentos da lei e os observa, não por legalismo, mas por revelação da personalidade e vontade de Deus; pelo direcionamento de vida que eles indicam.3

A questão final envolverá a falsa e verdadeira adoração, o verdadeiro e o falso evangelho. A terceira mensagem angélica dirige a atenção para as consequências de se recusar o eterno evangelho de Cristo, o que consequentemente é a recusa do convite para participar da verdadeira adoração anunciada pela primeira mensagem angélica. Ela descreve vividamente os resultados finais das decisões relacionada a adoração. A decisão por certo não é fácil, pois qualquer que seja ela, envolverá sofrimento. Aqueles que optam por adorar a Deus sofrerão a ira do dragão (Apocalipse 12:17) e, num determinado momento chegarão a ser ameaçados de morte (Apocalipse 13:15), ao passo que aqueles que escolhem adorar a "besta e sua imagem" lhes recairão as sete últimas pragas e, adiante, enfrentarão o "lago de fogo" (Apocalipse capítulos 15 e 16Apocalipse 20:14-15).

Contudo, ainda que ambas as decisões impliquem sofrimento, os resultados finais são diferentes. Os adoradores do Criador escaparão da ira mortal do dragão e estarão em pé com o Cordeiro no monte Sião (Apocalipse 7:2-4;Apocalipse 14:1 cf. Joel 2:32). Diferentemente, os adoradores da "besta e de sua imagem" receberão a plenitude da ira de Deus e morrerão na presença dos santos anjos e do Cordeiro (Apocalipse 14:9-10Apocalipse 20:11-15).

Todos terão que decidir em que lado estarão. Se alguém escolher a justificação pela fé, isto será demonstrado em sua participação no culto que Deus aprova; se alguém escolher a justificação pelas obras, isto será demonstrado por sua participação numa forma de culto que Deus proibiu, mas que a "besta e sua imagem" ordenam - uma adoração produzida à imagem do homem (cf. II Tessalonicenses 2:3-4Gênesis 4:3-7). Deus não pode aceitar esta última forma de adoração porque ela oferece prioridade aos mandamentos dos homens e não aos mandamentos de Deus(e) (Marcos 7:7-9Colossenses 2:8). Ela procura a justificação através das obras dos homens e não pela fé que decorre da completa submissão ao Deus Criador, Redentor e Recriador.4

A fé que conduz a Deus e que resistirá a qualquer dificuldade nos eventos finais deste mundo esta exemplificada na história de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Daniel capítulo 3). Assim, a terceira mensagem angélica é, em sua essência, uma mensagem de justificação pela fé.
"Os terríveis juízos pronunciados contra o culto à besta e sua imagem (Apocalipse 14:9-11) deveriam levar todos a diligente estudo das profecias para aprenderem o que é o sinal da besta, e como devem evitar recebê-lo. As massas populares porém, cerram os ouvidos à verdade, volvendo-se às fábulas. Olhando para os últimos dias, declarou o apóstolo Paulo que: 'não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos.' (II Timóteo 4:3NVI). Chegamos, já, a esse tempo. As multidões rejeitam a verdade das Escrituras, por ser ela contrária aos desejos do coração pecaminoso e amante do mundo; e Satanás lhes proporciona os enganos que amam."5
Deus tem Seus filhos em todas as igrejas, mas é através da igreja remanescente que Ele proclama a mensagem que deverá restaurar a verdadeira adoração; mediante o chamamento de Seu povo para fora dos círculos da apostasia, os prepara para o retorno de Cristo. Reconhecendo que muitos dentre o povo de Deus ainda deverão unir-se ao povo remanescente, este tem clara percepção de suas imperfeições e fraquezas quando tenta executar sua solene missão. Percebe que é unicamente através da graça de Deus que lhe será possível cumprir sua monumental tarefa (João 15:5).

À luz do breve retorno de Cristo e da necessidade de preparo para encontrá-Lo, o compassivo e urgente chamado de Deus é encaminhado: "Retirai-vos dela, povo Meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao Céu, e Deus Se lembrou dos atos iníquos que ela praticou." (Apocalipse 18:4-5 RA).


Texto baseado em: Nisto Cremos. (2003). 7.ª ed., São Paulo: CPB, cap. 12.
a. Acesse: Fogo Extinguível - II (em: "Castigo Eterno").
b. Todo o processo de justificação é coordenado por Deus (Efésios 2:8-9); porém, ele é iniciado somente quando o pecador arrepende-se de seus erros e recorre ao sacrifício de Cristo como meio de obter o perdão (II Coríntios 7:10; Hebreus 4:14-16; Hebreus 9:27-28). Uma vez perdoado ou justificado, o pecador deve manter-se em constante obediência a Deus, o que evitará que a sua anterior condição pecaminosa e culpa retornem ("vai e não peques mais", João 8:11 cf. I João 3:4; Romanos 7:7). A fé exigida para que haja esse processo de justificação (cf. Hebreus 11:6), é terrível e constantemente substituída por ilusórias práticas ou obras humanas que envolvem: penitências, confessionários, uso de amuletos, e etc. Atualmente, o protestantismo à semelhança da igreja de Roma, vem adotando obras carnais como meio de obter - forçadamente - perdão e outros favores divinos. A superstição e os costumes que predominaram a igreja romana na idade média, envolvem fortemente várias igrejas protestantes da atualidade (sobretudo os seguimentos pentecostal e neo-pentecostal); o comércio de indulgências e de outros elementos religiosos estão se materializado novamente no mercado de objetos que supostamente resolvem os anseios daqueles que os adquirem (após pagamento de certa quantia determinada pelo líder religioso); igualmente, as ofertas e os dízimos estão sendo deturpados com os mesmos propósitos. Estranhas cerimônias e aquisições de objetos, jamais ensinadas pelas Escrituras, são consideradas como essenciais nos chamados "cultos" de libertação, de milagres, de descarrego, de finanças e etc. Estas, e outras práticas humanas inúteis e repugnantes, excluem a justificação pela fé que Deus deseja realizar em cada pecador.
c. Acesse: Babilônia DenunciadaBabilônia Denunciada - IIPrincípio do Dia Profético (em: "Um Tempo, Dois Tempos e Metade de Um Tempo").
d. O "chifre pequeno" citado em Daniel 8:9-12 refere-se ao império de Roma que teve duas épocas distintas: pagã e papal. Isso inclui naturalmente a atuação da igreja de Roma nos eventos descritos em Daniel capítulo 8. Para maiores esclarecimentos acesse: Roma versus Antíoco Epifânio.
1. Hebreus 11:6; Tiago capítulo 2; Êxodo 20:3-17 cf. Mateus 19:16-19, Tiago 2:8-13, Lucas 16:17.
2. Isaías 42:20-21 cf. Mateus 5:17-19; João 14:21 cf. João 10:30.
3. Ezequiel 11:19-20; Hebreus 8:10-12; Hebreus 10:16-17 cf. Jeremias 31:31-34, Ezequiel 22:26, Provérbios 7:2.
4. Jó 4:17; Jó 36:3; Salmos 124:8; Isaías 44:6; Isaías 48:17; Isaías 65:17; Isaías 66:22-23; Apocalipse 21:5.
5. WHITE, E. G. Grande Conflito, O; São Paulo: CPB, sec. IV, cap. 37, p. 594.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A Origem do Mal

Enquanto todos os seres criados reconheceram a lealdade pelo amor, houve perfeita harmonia por todo o universo de Deus. Deleitavam-se em refletir a Sua glória, e patentear o Seu louvor. E enquanto foi supremo o amor para com Deus, o amor de uns para com outros foi cheio de confiança e abnegado. (...)

Sobreveio, porém, uma mudança neste estado de felicidade. Houve um ser que perverteu a liberdade que Deus concedera as Suas criaturas. O pecado originou-se com aquele que, abaixo de Cristo, fora o mais honrado por Deus, e o mais elevado em poder e glória entre os habitantes do Céu. Lúcifer, "filho da alva", era o primeiro dos querubins cobridores(a), santo, incontaminado. Permanecia na presença do grande Criador, e os incessantes raios de glória que cercavam o eterno Deus, repousavam sobre ele. Assim diz o Senhor Jeová:
"(...) Você era o modelo da perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita beleza. Você estava no Éden, no jardim de Deus; todas as pedras preciosas o enfeitavam. (...) Você foi ungido como um querubim guardião, pois para isso Eu o designei. Você estava no monte santo de Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes. Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi criado até que se achou maldade em você." (Ezequiel 28:12-15 NVI).
Pouco a pouco Lúcifer veio a condescender com o desejo de exaltação própria. Dizem as Escrituras: "Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor. (...)" (Ezequiel 28:17 YLT). "E tu dizias no teu coração: 'Eu subirei ao Céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono. (...) serei semelhante ao Altíssimo'." (Isaías 14:13-14 YLT).

Se bem que toda a sua glória proviesse de Deus, este poderoso anjo veio a considerá-la como pertencente a si próprio. Não contente com sua posição, embora fosse mais honrado do que a hoste celestial, arriscou-se a cobiçar a homenagem devida unicamente ao Criador. Em vez de procurar fazer com que Deus fosse o alvo supremo das afeições e fidelidade de todos os seres criados, consistiu o seu esforço em obter para si o serviço e lealdade deles. E, cobiçando a glória que o infinito Pai conferira a Seu Filho, este príncipe dos anjos aspirou ao poder que era a prerrogativa de Cristo apenas.

Quebrantou-se então a perfeita harmonia do Céu. A disposição de Lúcifer para servir a si em vez do Criador, suscitou um sentimento de apreensão ao ser observada por aqueles que consideravam a glória de Deus suprema. No conselho celestial os anjos insistiam com Lúcifer. O Filho de Deus apresentou perante ele a grandeza, a bondade e a justiça do Criador; e, a natureza imutável e sagrada de Sua lei. Mas a advertência, feita com amor e misericórdia infinitos, apenas despertou espírito de resistência. Lúcifer consentiu que prevalecessem seus sentimentos de inveja para com Cristo, e se tornou mais decidido. (...)

O Rei do universo convocou os exércitos celestiais perante Ele, para, em sua presença, apresentar a verdadeira posição de Seu Filho, e mostrar a relação que Este mantinha para com todos os seres criados. (...) Os anjos alegremente reconheceram a supremacia de Cristo, e, prostrando-se diante dEle, extravasaram seu amor e adoração. Lúcifer curvou-se com eles; mas em seu coração havia um conflito estranho, violento. A verdade, a justiça e a lealdade estavam a lutar contra a inveja e o ciúme. A influência dos santos anjos pareceu por algum tempo levá-lo com eles. Ao ascenderem os cânticos de louvores, em melodiosos acordes, avolumados por milhares de alegres vozes, o espírito do mal pareceu subjugado; indizível amor fazia fremir todo o seu ser; em concerto com os adoradores destituídos de pecado, expandia-se-lhe a alma em amor para com o Pai e o Filho.

De novo, porém, achou-se repleto de orgulho por sua própria glória. Voltou-lhe o desejo de supremacia, e uma vez mais condescendeu com a inveja de Cristo. As altas honras conferidas a Lúcifer não eram apreciadas como um dom especial de Deus, e, portanto, não provocavam lhe gratidão para com o seu Criador. Ele se gloriava em seu brilho e exaltação, e almejava ser igual a Deus. Era amado e reverenciado pelo exército celestial, anjos se deleitavam em executar suas ordens, e estava ele revestido de sabedoria e glória mais do que todos eles. Contudo, o Filho de Deus era mais exaltado do que ele, sendo um em poder e autoridade com o Pai. Partilhava dos conselhos do Pai, enquanto Lúcifer não penetrava assim nos propósitos de Deus. "Por que", perguntava este poderoso anjo, "deveria Cristo ter a primazia? Por que é Ele mais honrado do que Lúcifer?"

Deixando seu lugar na presença imediata do Pai, Lúcifer saiu a difundir o espírito de descontentamento entre os anjos. Ele agia em misterioso segredo, e durante algum tempo escondeu seu propósito real sob uma aparência de reverência para com Deus. Começou a insinuar dúvidas com respeito às leis que governavam os seres celestiais, dando a entender que, conquanto pudessem as leis ser necessárias para os habitantes dos mundos, não necessitavam de tais restrições os anjos, mais elevados por natureza, pois sua sabedoria era um guia suficiente. Não eram eles seres que pudessem acarretar desonra a Deus; todos os seus pensamentos eram santos; não havia para eles maior possibilidade de errar para com o próprio Deus.

A exaltação do Filho de Deus à igualdade com o Pai, foi representada como sendo uma injustiça a Lúcifer, o qual, pretendia-se, ter também direito à reverência e à honra. Este príncipe dos anjos alegava que, se pudesse tão somente alcançar a sua verdadeira e elevada posição, grande bem resultaria para todo o exército do Céu; pois era seu objetivo conseguir liberdade para todos. (...) Muitos dos anjos ficaram cegos pelos enganos de Lúcifer.

Tirando vantagem da amável e leal confiança nele depositada pelos seres santos que estavam sob suas ordens, com tal arte infiltrara em suas mentes a sua própria desconfiança e descontentamento que sua participação não foi percebida. Lúcifer havia apresentado os propósitos de Deus sob uma luz falsa, interpretando-os mal e torcendo-os, de modo a incitar a dissensão e descontentamento. Astuciosamente levou os ouvintes a dar expressão aos seus sentimentos; então eram tais expressões repetidas por ele quando isto servisse aos seus intuitos, como prova de que os anjos não estavam completamente de acordo com o governo de Deus. Ao mesmo tempo em que, de sua parte, pretendia uma perfeita fidelidade para com Deus, insistia que modificações na ordem e leis do Céu eram necessárias para a estabilidade do governo divino.

Assim, enquanto trabalhava para provocar oposição à lei de Deus, e infiltrar seu próprio descontentamento na mente dos anjos sob seu comando, ostensivamente estava ele procurando remover o descontentamento e reconciliar anjos desafetos com a ordem do Céu. Ao mesmo tempo em que secretamente fomentava a discórdia e a rebelião, com uma astúcia consumada fazia parecer como se fosse seu único intuito promover a lealdade, e preservar a harmonia e a paz. (...)

Com grande misericórdia, de acordo com o Seu caráter divino, Deus suportou longamente a Lúcifer. O espírito de descontentamento e desafeição nunca antes havia sido conhecido no Céu. Era um elemento novo, estranho, misterioso, inexplicável. O próprio Lúcifer não estivera a princípio ciente da natureza verdadeira de seus sentimentos; durante algum tempo receou exprimir a ação e imaginações de sua mente; todavia não as repeliu. Não via para onde se deixava levar. Entretanto, esforços que somente o amor e a sabedoria infinitos poderiam imaginar, foram feitos para convencê-lo de seu erro. Provou-se que sua desafeição era sem causa, e fez-se-lhe ver qual seria o resultado de persistir em revolta. Lúcifer estava convencido de que não tinha razão. Viu que "justo é o Senhor em todos os Seus caminhos, e santo em todas as Suas obras" (Salmos 145:17 YLT); que os estatutos divinos são justos, e que, como tais, ele os deveria reconhecer perante todo o Céu. Houvesse ele feito isto, poderia ter salvo a si mesmo e a muitos anjos.

Ele não tinha naquele tempo repelido totalmente sua lealdade a Deus. Embora tivesse deixado sua posição como querubim cobridor, se contudo estivesse disposto a voltar para Deus, reconhecendo a sabedoria do Criador, e satisfeito por preencher o lugar a ele designado no grande plano de Deus, teria sido reintegrado em suas funções. Chegado era o tempo para uma decisão final; deveria render-se completamente à soberania divina, ou colocar-se em franca rebelião. Quase chegou à decisão de voltar; mas o orgulho o impediu disto. Era sacrifício demasiado grande, para quem fora tão altamente honrado, confessar que estivera em erro, que suas imaginações eram errôneas, e render-se à autoridade que ele procurara demonstrar ser injusta.

Um compassivo Criador, sentindo terna piedade por Lúcifer e seus seguidores, procurava fazê-los retroceder do abismo de ruína em que estavam prestes a imergir. Sua misericórdia, porém, foi mal-interpretada. Lúcifer apontou a longanimidade de Deus como uma prova de sua superioridade, como indicação de que o Rei do universo ainda concordaria com suas imposições. Se os anjos permanecessem firmes com ele, declarou, poderiam ainda ganhar tudo que desejassem. Persistentemente defendeu sua conduta, e entregou-se amplamente ao grande conflito contra seu Criador. Assim foi que Lúcifer, "o portador de luz", aquele que participava da glória de Deus, que servia junto ao Seu trono, tornou-se, pela transgressão, Satanás, o "adversário" de Deus e dos seres santos, e destruidor daqueles a quem o Céu confiou a guia e guarda.

Rejeitando com desdém os argumentos e rogos dos anjos fiéis, acusou-os de serem escravos iludidos. A preferência mostrada para com Cristo declarou ele ser um ato de injustiça tanto para si como para todo o exército celestial, e anunciou que não mais se sujeitaria a esta usurpação dos direitos, seus e deles. Nunca mais reconheceria a supremacia de Cristo. Resolvera reclamar a honra que deveria ter sido conferida a ele, e tomar o comando de todos os que se tornassem seus seguidores; e prometeu àqueles que entrassem para as suas fileiras um governo novo e melhor, sob o qual todos desfrutariam liberdade. Grande número de anjos deram a entender seu propósito de o aceitar como seu chefe. Lisonjeado pelo apoio com que suas insinuações eram recebidas, esperou conquistar todos os anjos para o seu lado, tornar-se igual ao próprio Deus, e ser obedecido por todo o exército celestial.

Os anjos fiéis ainda instavam com ele e com os que com ele simpatizavam, para que se submetessem a Deus; apresentavam-lhes o resultado inevitável caso se recusassem a isso: Aquele que os criara poderia subverter seu poder, e castigar de maneira notável sua revoltosa ousadia. Nenhum anjo poderia com êxito opor-se à lei de Deus, que é tão sagrada como Ele próprio. Advertiram todos a que fechassem os ouvidos ao raciocínio enganador de Lúcifer, e insistiram com este e seus seguidores para buscarem a presença de Deus sem demora, e confessarem o erro de pôr em dúvida Sua sabedoria e autoridade.

Muitos estiveram dispostos a dar atenção a este conselho, arrepender-se de sua desafeição, e procurar de novo ser recebidos no favor do Pai e de Seu Filho. Lúcifer, porém, tinha pronto outro engano. O grande rebelde declarou então que os anjos que com ele se uniram tinham ido muito longe para voltarem; que ele conhecia a lei divina, e sabia que Deus não perdoaria. Declarou que todos os que se sujeitassem à autoridade do Céu seriam despojados de sua honra, rebaixados de sua posição. Quanto a si, estava decidido a nunca mais reconhecer a autoridade de Cristo. A única maneira de agir que restava a ele e seus seguidores, dizia, consistia em vindicar sua liberdade, e adquirir pela força os direitos que não lhes haviam sido de boa vontade concedidos.

Tanto quanto dizia respeito ao próprio Satanás, era verdade que ele havia ido agora demasiado longe para que pudesse voltar. Mas não era assim com os que tinham sido iludidos pelos seus enganos. Para estes, os conselhos e rogos dos anjos fiéis abriram uma porta de esperança; e, se houvessem eles atendido a advertência, poderiam ter sido arrancados da cilada de Satanás. Mas ao orgulho, ao amor para com seu chefe, e ao desejo de uma liberdade sem restrições permitiu-se terem o domínio, e as instâncias do amor e misericórdia divinos foram finalmente rejeitadas.

Deus permitiu que Satanás levasse avante sua obra até que o espírito de desafeto amadurecesse em ativa revolta. Era necessário que seus planos se desenvolvessem completamente a fim de que todos pudessem ver sua verdadeira natureza e tendência. Lúcifer, sendo o querubim ungido, fora altamente exaltado; era grandemente amado pelos seres celestiais, e forte era sua influência sobre eles. O governo de Deus incluía não somente os habitantes do Céu, mas de todos os mundos que Ele havia criado; e Lúcifer concluiu que, se ele pôde levar consigo os anjos do Céu à rebelião, poderia também levar todos os mundos. (...) Seu poder para enganar era muito grande. Disfarçando-se sob a capa da falsidade, alcançara uma vantagem. Todos os seus atos eram de tal maneira revestidos de mistério, que era difícil aos anjos descobrir a verdadeira natureza de sua obra. (...) Mesmo os anjos fiéis não podiam discernir-lhe completamente o caráter, ou ver para onde sua obra estava a levar.

Lúcifer havia a princípio dirigido suas tentações de tal maneira que ele próprio não pareceu achar-se comprometido. Os anjos que ele não pôde trazer completamente para o seu lado, acusou-os de indiferentes aos interesses dos seres celestiais. Da mesma obra que ele próprio estava a fazer, acusou os anjos fiéis. Consistia sua astúcia em perturbar com argumentos sutis, referentes aos propósitos de Deus. Tudo que era simples ele envolvia em mistério, e por meio de artificiosa perversão lançava a dúvida sobre as mais claras declarações de Jeová. E sua elevada posição, tão intimamente ligada com o governo divino, dava maior força a suas representações. (...)

Procurara falsificar a Palavra de Deus, e de maneira errônea figurara Seu plano de governo, pretendendo que Deus não era justo ao impor leis aos anjos; que, exigindo submissão e obediência de Suas criaturas, estava simplesmente a procurar a exaltação de Si mesmo. (...) Satanás fizera com que parecesse estar ele procurando promover o bem do universo. O verdadeiro caráter do usurpador e seu objetivo real devem ser compreendidos por todos. Ele deve ter tempo para manifestar-se pelas suas obras iníquas.

A discórdia que sua conduta determinara no Céu, Satanás lançara sobre o governo de Deus. Todo o mal declarou ele ser o resultado da administração divina. Alegava que era seu objetivo aperfeiçoar os estatutos de Jeová. Por isso permitiu Deus que ele demonstrasse a natureza de suas pretensões, a fim de mostrar o efeito de suas propostas mudanças(b) na lei divina. A sua própria obra o deve condenar. Satanás pretendera desde o princípio que não estava em rebelião. O universo todo deve ver o enganador desmascarado.

Mesmo quando foi expulso do Céu, a Sabedoria infinita não destruiu Satanás. (...) Os habitantes do Céu, e dos mundos, não estando preparados para compreender a natureza ou consequência do pecado, não poderiam ter visto então a justiça de Deus na destruição de Satanás.

Houvesse ele sido imediatamente destruído, alguns teriam servido a Deus pelo temor em vez de o fazer pelo amor. A influência do enganador não teria sido completamente destruída, tampouco o espírito de rebelião teria sido totalmente desarraigado. Para o bem de todo o universo, através dos intérminos séculos, ele deveria desenvolver mais completamente seus princípios, a fim de que suas acusações contra o governo divino pudessem ser vistas sob sua verdadeira luz, por todos os seres criados; a justiça e a misericórdia de Deus, bem como a imutabilidade de Sua lei, pudessem para sempre ser postas fora de toda a questão.

A rebelião de Satanás deveria ser uma lição para o universo, durante todas as eras vindouras - perpétuo testemunho da natureza do pecado e de seus terríveis resultados. A atuação do governo de Satanás, seus efeitos tanto sobre os homens como sobre os anjos, mostrariam qual seria o fruto de se pôr de parte a autoridade divina. Testificariam que, ligado à existência do governo de Deus, está o bem-estar de todas as criaturas que Ele fez. Assim, a história desta terrível experiência com a rebelião seria uma salvaguarda perpétua para todos os seres santos, para impedir que fossem enganados quanto à natureza da transgressão, para salvá-los de cometer pecado, e de sofrerem sua punição.

Aquele que governa no Céu é O que vê o fim desde o princípio - o Ser perante o qual os mistérios do passado e do futuro estão igualmente expostos, e que, para além da miséria, trevas e ruína que o pecado acarretou, contempla o cumprimento de Seus propósitos de amor e bênçãos. Se bem que "nuvens escuras e espessas O cercam; retidão e justiça são a base do Seu trono." (Salmos 97:2 NVI). E isto os habitantes do universo, tanto fiéis como infiéis, compreenderão um dia. "Ele é a Rocha, as Suas obras são perfeitas, e todos os Seus caminhos são justos. É Deus fiel, que não comete erros; justo e reto Ele é." (Deuteronômio 32:4 NVI).


Texto extraído de: WHITE, E. G. Patriarcas e Profetas, São Paulo: CPB, sec. I, cap. I, p. 35-43.
a. Uma categoria de anjos. A envergadura de suas assas estende-se sobre o trono de Deus envolvendo diretamente a Sua glória. São também responsáveis pela administração dos cânticos celestiais. (cf. Êxodo 25:20-22, II Crônicas 3:10-13, II Crônicas 5:13-14, Ezequiel 28:13-14).

sábado, 25 de janeiro de 2014

Falsa Imortalidade

Já no início da história humana, começou Satanás seus esforços para enganar a nossa raça. Aquele que incitara rebelião no Céu(a), desejou levar os habitantes da Terra a unirem-se com ele em luta contra o governo de Deus. Adão e Eva tinham sido perfeitamente felizes na obediência à lei divina, e esse fato era um testemunho constante contra a alegação em que insistira Satanás no Céu, de que a lei de Deus era opressiva, e se opunha ao bem-estar de Suas criaturas. (...)


Houvesse Satanás se manifestado em seu verdadeiro caráter, teria sido repelido de imediato, pois Adão e Eva tinham sido advertidos contra este perigoso adversário; ele, porém, operou na treva ocultando seu propósito para que mais eficazmente pudesse realizar o seu objetivo. Empregando como intermediária a serpente, então criatura de fascinante aspecto, dirigiu-se a Eva: "É assim que Deus disse: não comereis de toda a árvore do jardim?" (Gênesis 3:1 KJV). Se Eva tivesse evitado entrar em argumentação com o tentador, teria estado em segurança; mas arriscou-se a conversar com ele e caiu vítima de seus enganos. É assim que muitos ainda são vencidos. Duvidam e argumentam com relação aos preceitos de Deus; e, ao invés de obedecerem aos mandados divinos, aceitam teorias humanas que tão somente disfarçam as armadilhas de Satanás.

"Disse a mulher à serpente: 'Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais'. Então a serpente disse à mulher: 'Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal'." (Gênesis 3:2-5 YLT). A serpente declarou que se tornariam como Deus, possuindo maior sabedoria que antes e sendo capazes de uma condição mais elevada de existência. Eva cedeu à tentação; e, por sua influência, Adão foi levado ao pecado. Aceitaram as palavras da serpente de que Deus não queria dizer o que falara; desconfiaram de seu Criador, imaginaram que Ele estava a restringir-lhes a liberdade, e que poderiam obter grande sabedoria e exaltação, por transgredir Sua lei. (...)

O único que prometeu a Adão vida em desobediência foi o grande enganador. E a declaração da serpente a Eva, no Éden - "Certamente não morrereis" - foi o primeiro sermão pregado acerca da imortalidade da alma. Todavia, esta declaração, repousando apenas na autoridade de Satanás, ecoa dos púlpitos da cristandade, e é recebida pela maior parte da humanidade tão facilmente como o foi pelos nossos primeiros pais. À sentença divina: "A alma que pecar, essa morrerá" (Ezequiel 18:20 KJV), é dada a significação: a alma que pecar, essa não morrerá, mas viverá eternamente. (...)

Depois da queda, Satanás ordenou a seus anjos que fizessem um esforço especial a fim de inculcar a crença da imortalidade inerente do homem; e, tendo induzido o povo a receber este erro, deveriam levá-lo a concluir que o pecador viveria em estado de eterna miséria. Agora o príncipe das trevas, operando por meio de seus agentes, representa a Deus como um tirano vingativo, declarando que Ele mergulha no inferno todos os que não Lhe agradam, e faz com que sempre sintam a Sua ira; e que, enquanto sofrem angústia indizível e se contorcem nas chamas eternas, Seu Criador para eles olha com satisfação. (...)

Quão repugnante a todo sentimento de amor e misericórdia, e mesmo ao nosso senso de justiça, é a doutrina de que os ímpios mortos são atormentados com fogo e enxofre num inferno eternamente a arder; que pelos pecados de uma breve vida terrestre sofrerão tortura enquanto Deus existir!(b) Contudo esta doutrina tem sido largamente ensinada, e ainda se acha incorporada em muitos credos da cristandade. (...)

Que ganharia Deus se admitíssemos que Ele Se deleita em testemunhar incessantes torturas; que Se alegra com os gemidos, gritos e maldições das sofredoras criaturas por Ele retidas nas chamas do inferno? Poderão esses terríveis sons ser música aos ouvidos do Amor infinito? Insiste-se em que a aplicação de intérmino sofrimento aos ímpios mostraria o ódio de Deus ao pecado, como a um mal ruinoso à paz e à ordem do Universo. Terrível blasfêmia! Como se o ódio de Deus ao pecado fosse a razão por que este se perpetua. (...) Está além do poder do espírito humano avaliar o mal que tem sido feito pela heresia do tormento eterno. A religião da Bíblia, repleta de amor, bondade e abundante de misericórdia é obscurecida pela superstição e, revestida de terror. (...)

A teoria do tormento eterno é uma das falsas doutrinas que constituem o vinho das abominações de Babilônia, do qual ela faz todas as nações beberem. (Apocalipse 14:8Apocalipse 17:2). Que ministros de Cristo hajam aceito esta heresia e a tenham proclamado do púlpito sagrado, é na verdade um mistério. Eles a receberam de Roma, assim como receberam o falso sábado. É verdade que tem sido ensinada por homens eminentes e piedosos; mas a luz sobre tal assunto não lhes chegou como a nós. Eram responsáveis apenas pela luz que resplandecia em seu tempo; nós o somos pela que brilha em nossa época. Se nos desviamos do testemunho da Palavra de Deus, aceitando falsas doutrinas porque nossos pais as ensinaram, caímos sob a condenação pronunciada sobre Babilônia; estamos a beber do vinho de suas abominações.

Ilusão imortalista

Numerosa classe, para a qual a doutrina do tormento eterno é revoltante, é levada ao erro oposto. Vêem que as Escrituras representam a Deus como um ser de amor e compaixão, e não podem crer que Ele destine Suas criaturas ao fogo de um inferno eternamente a arder. Crendo, porém, ser a alma de natureza imortal, não percebem outra alternativa senão concluir que toda a humanidade se salvará, por fim. Muitos consideram as ameaças da Bíblia como sendo meramente destinadas a amedrontar os homens para a obediência, e não para se cumprirem literalmente. Assim o pecador pode viver em prazeres egoístas, desatendendo aos preceitos de Deus, e não obstante esperar ser, ao final, recebido em Seu favor. Esta doutrina, admitindo a misericórdia de Deus, mas passando por alto Sua justiça, agrada ao coração carnal e torna audazes os ímpios em sua iniquidade. (...)

Deus deu em Sua Palavra prova decisiva de que punirá os transgressores de Sua lei. Os que se lisonjeiam de que Ele é muito misericordioso para exercer justiça contra o pecador, apenas têm de olhar para a cruz do Calvário. A morte do imaculado Filho de Deus testifica que "o salário do pecado é a morte" (Romanos 6:23), que toda violação da lei de Deus deve receber sua justa paga (I João 3:4). Cristo, que não tinha pecado, Se fez pecado pelo homem. Encarou a culpa da transgressão, sendo-Lhe ocultado o rosto do Pai, até Lhe quebrantar o coração e desfazer a vida. Todo esse sacrifício foi feito para que os pecadores possam ser remidos. De nenhum outro modo conseguiria o homem livrar-se da pena do pecado. E toda alma que se recusa a tornar-se participante da expiação provida a tal preço, deve levar em si própria a culpa e o castigo da transgressão. (...)

Deus não força a vontade ou o juízo de ninguém. Não tem prazer na obediência servil. Deseja que as criaturas de Suas mãos O amem porque Ele é digno de amor. Quer que Lhe obedeçam porque reconhecem inteligentemente Sua sabedoria, justiça e benevolência. E todos os que possuem concepção justa destas qualidades, amá-Lo-ão porque são atraídos para Ele e Lhe admiram os atributos. (...)

Os que escolheram a Satanás como chefe, e por seu poder têm sido dirigidos, não estão preparados para comparecer à presença de Deus. O orgulho, o engano, a licenciosidade, a crueldade, fixaram-se em seu caráter. Podem eles entrar no Céu, para morar para sempre com aqueles a quem desprezaram e odiaram na Terra? A verdade nunca será agradável ao mentiroso; a humildade não satisfará o conceito de si mesmo e o orgulho; a pureza não é aceitável ao corrupto; o amor abnegado não parece atrativo ao egoísta. Que fonte de gozo poderia oferecer o Céu para os que se acham totalmente absorvidos nos interesses terrenos e egoístas?

Poderiam aqueles cuja vida foi empregada em rebelião contra Deus, ser subitamente transportados para o Céu, e testemunhar o estado elevado e santo de perfeição que ali sempre existe (...); poderiam aqueles cujo coração está cheio de ódio a Deus, à verdade e santidade, unir-se à multidão celestial e participar de seus cânticos de louvor? Poderiam suportar a glória de Deus e do Cordeiro?

Não, absolutamente; anos de graça lhes foram concedidos, a fim de que pudessem formar caráter para o Céu; eles, porém, nunca exercitaram a mente no amor à pureza; nunca aprenderam a linguagem do Céu, e agora é demasiado tarde. Uma vida de rebeldia contra Deus incapacitou-os para o Céu. A pureza, santidade e paz dali lhes seriam uma tortura; a glória de Deus seria um fogo consumidor (cf. Êxodo 24:17). Almejariam fugir daquele santo lugar. Receberiam alegremente a destruição, para que pudessem esconder-se da face dAquele que morreu para os remir (cf. Apocalipse 6:16). O destino dos ímpios se fixa por sua própria escolha. Sua exclusão do Céu é espontânea da sua parte, e justa e misericordiosa da parte de Deus. (...)

Em misericórdia para com o mundo, Deus suprimiu seus ímpios habitantes no tempo de Noé. Em misericórdia, destruiu os corruptos habitantes de Sodoma. Mediante o poder enganador de Satanás, os praticantes da iniquidade obtêm simpatia e admiração, e estão assim constantemente levando outros à rebeldia. Assim foi ao tempo de Caim e Noé, e ao tempo de Abraão e Ló; assim é em nosso tempo. É em misericórdia para com o Universo que Deus finalmente destruirá os que rejeitam a Sua graça(c).

"O salário do pecado é a morte; mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor." (Romanos 6:23 KJV). Ao passo que a vida é a herança dos justos, a morte é a porção dos ímpios. (...) Os que não alcançaram o perdão, mediante o arrependimento e a fé, devem receber a pena da transgressão: "o salário do pecado". Sofrem castigo, que varia em duração e intensidade, "segundo suas obras", mas que finalmente termina com a segunda morte. Visto ser impossível para Deus, de modo coerente com a Sua justiça e misericórdia salvar o pecador em seus pecados, Ele o despoja da existência, que perdeu por suas transgressões, e da qual se mostrou indigno. Diz um escritor inspirado: "Ainda um pouco, e o ímpio não existirá; olharás para o seu lugar, e não aparecerá." (Salmos 37:10 YLT). E outro declara: "E serão como se nunca tivessem sido." (Obadias 1:16 KJV). (...)

Assim se porá fim ao pecado, juntamente com toda a desgraça e ruína que dele resultaram. Diz o salmista: "Repreendeste as nações e destruíste os ímpios; para todo o sempre apagaste o nome deles. O inimigo foi totalmente arrasado, para sempre. (...)" (Salmos 9:5-6 NVI cf. Salmos 69:28Apocalipse 21:27). João, no Apocalipse, olhando para a futura condição eterna, ouve uma antífona universal de louvor, imperturbada por qualquer nota de discórdia. Toda criatura no Céu e na Terra atribuía glória a Deus (Apocalipse 5:13). Não haverá então almas perdidas para blasfemarem de Deus, contorcendo-se em tormento interminável; tampouco seres desditosos no inferno unirão seus gritos aos cânticos dos salvos.

Falso Arrebatamento

Sobre o erro fundamental da imortalidade inerente, repousa a doutrina da consciência na morte, doutrina que, semelhantemente à do tormento eterno, se opõe aos ensinos das Escrituras, aos ditames da razão, e aos nossos sentimentos de humanidade.

Segundo a crença popular, os remidos [que supostamente já estariam] no Céu estão a par de tudo que ocorre na Terra, especialmente da vida dos amigos que deixaram após si. Mas como poderia ser fonte de felicidade para os mortos o saberem das dificuldades dos vivos, testemunhar os pecados cometidos por seus próprios amados, e vê-los suportar todas as tristezas, desapontamentos e angústias da vida? Quanto da bem-aventurança celeste seria fruída pelos que estivessem contemplando seus amigos na Terra? E quão revoltante não é a crença de que, logo que o fôlego(d) deixa o corpo, a alma(e) do impenitente é entregue às chamas do inferno! Em quão profundas angústias deverão mergulhar os que vêem seus amigos passarem à sepultura sem se acharem preparados, para entrar numa eternidade de miséria e pecado! Muitos têm sido arrastados à insanidade por este inquietante pensamento.

Que dizem as Escrituras com relação a estas coisas? Davi declara que o homem não se acha consciente na morte: "Sai-lhes o espírito(f), e eles tornam-se em sua terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos." (Salmos 146:4 KJV). Salomão dá o mesmo testemunho: "Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco eles têm jamais recompensa, mas a sua memória ficou entregue ao esquecimento. Até o seu amor, o seu ódio e a sua inveja já pereceram e já não têm parte alguma neste século, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. (...) Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma." (Eclesiastes 9:5-10 KJV).

Quando, em resposta à sua oração, a vida de Ezequias foi prolongada quinze anos; o rei, agradecido, rendeu a Deus um tributo de louvor por Sua grande misericórdia. Nesse cântico ele dá a razão por assim se regozijar: "Porque não pode louvar-Te a sepultura, nem a morte glorificar-Te; nem esperarão em Tua verdade os que descem à cova. Os vivos, os vivos, esses Te louvarão como eu hoje faço. (...)" (Isaías 38:18-19 KJV). A teologia popular representa os justos mortos como estando no Céu, admitidos na bem-aventurança e louvando a Deus com língua imortal; Ezequias, porém, não pôde ver tal perspectiva gloriosa na morte. Com suas palavras concorda o testemunho do salmista: "Na morte não há lembrança de Ti; no sepulcro quem Te louvará?" (Salmos 6:5 KJV). "Os mortos não louvam ao Senhor, nem os que descem ao silêncio." (Salmos 115:17 KJV).

Pedro, no dia de Pentecoste, declarou que o patriarca Davi "morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua sepultura" (Atos 2:29 YLT). "Porque Davi não subiu aos Céus." (Atos 2:34 YLT). O fato de Davi permanecer na sepultura até à ressurreição, prova que os justos não ascendem ao Céu por ocasião da morte. É unicamente pela ressurreição, e em virtude de Jesus haver ressuscitado, que Davi poderá finalmente assentar-se à destra de Deus. E Paulo disse: "Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos." (I Coríntios 15:16-18 KJV). Se durante quatro mil anos os justos tivessem à sua morte ido diretamente para o Céu, como poderia Paulo ter dito que se não há ressurreição "os que dormiram em Cristo estão perdidos"? Não seria necessário ressurreição. (...)

Quando estava para deixar Seus discípulos, Jesus não lhes disse que logo iriam ter com Ele. "Vou preparar-vos lugar", disse Ele. "E, se Eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para Mim mesmo." (João 14:2-3KJV). E diz-nos Paulo que "o mesmo Senhor descerá do Céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor." E acrescenta: "Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras." (I Tessalonicenses 4:16-18 KJV). Quão grande é o contraste entre essas expressões de conforto e as dos ministros universalistas(g)! (...)

Considerações Finais

Antes que qualquer pessoa entre nas mansões dos bem-aventurados, seu caso deverá ser investigado; seu caráter e ações deverão passar em revista perante Deus. Todos serão julgados de acordo com as coisas escritas nos livros(h), e recompensados conforme tiverem sido as suas obras. Este juízo não ocorre por ocasião da morte. Notai as palavras de Paulo: "Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do Varão que destinou; e disto deu certeza a todos, ressuscitando-O dos mortos." (Atos 17:31KJV). Aqui o apóstolo terminantemente declara que um tempo específico, então no futuro, foi fixado para o juízo do mundo.

Judas se refere ao mesmo tempo: "Aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão, e em prisões eternas, até ao juízo daquele grande dia." E cita ainda as palavras de Enoque: "Eis que é vindo o Senhor com milhares de Seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade que impiamente cometeram (...)" (Judas 1:6, 14-15 KJV). João declara ter visto "os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono; e abriram-se os livros. (...) e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros" (Apocalipse 20:12 KJV).

Se, porém, os mortos já estão gozando a bem-aventurança celestial, ou, contorcendo-se nas chamas do inferno, que necessidade há de um juízo futuro? Os ensinos da Palavra de Deus acerca destes importantes pontos não são obscuros nem contraditórios; podem ser compreendidos pela mente comum. Mas que espírito imparcial pode ver sabedoria ou justiça na teoria corrente? Receberão os justos, depois da investigação de seu caso no juízo, este elogio: "Bem está, servo bom e fiel. (...) Entra no gozo do teu Senhor" (Mateus 25:21 YLT), quando eles estiveram morando em Sua presença, talvez durante longos séculos? São os ímpios convocados do lugar do tormento, para receberem esta sentença do Juiz de toda a Terra: "Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno"? (Mateus 25:41). Oh, sarcasmo solene! Vergonhoso obstáculo à sabedoria e justiça de Deus! (...)

Em parte alguma nas Escrituras Sagradas se encontra a declaração de que é por ocasião da morte que os justos vão para a sua recompensa e os ímpios ao seu castigo. Os patriarcas e profetas não fizeram tal afirmativa. Cristo e Seus apóstolos não fizeram sugestão alguma a esse respeito. A Bíblia claramente ensina que os mortos não vão imediatamente para o Céu. Eles são representados como estando a dormir até à ressurreição (I Tessalonicenses 4:14 cf. Jó 14:10-12). No mesmo dia em que se quebra a cadeia de prata, e se despedaça o copo de ouro, perecem os pensamentos dos homens (Eclesiastes 12:6-7 cf. Salmos 104:29). Os que descem à sepultura estão em silêncio. Não mais sabem de coisa alguma que se faz debaixo do Sol (Jó capítulo 14).

Bendito descanso para o justo cansado! Seja longo ou breve o tempo, não é para eles senão um momento. Dormem, e são despertados pela trombeta de Deus para uma imortalidade gloriosa:

"Eis aqui vos digo um mistério: na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: 'Tragada foi a morte na vitória'." (I Coríntios 15:51-54 YLT).

Ao serem eles chamados de seu profundo sono, começam a pensar exatamente onde haviam parado. A última sensação foi a agonia da morte, o último pensamento o de que estavam a cair sob o poder da sepultura. Ao se levantarem da tumba, seu primeiro alegre pensamento se expressará na triunfante aclamação: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?" (I Coríntios 15:55 YLT).



Texto extraído de: WHITE, E. G. Grande Conflito, O; São Paulo: CPB, sec. IV, cap. 33, p. 531-550.
a. Acesse: A Origem do Mal
d. Acesse: Fôlego de Vida
e. Acesse: Alma Vivente
f. Acesse: Espírito
g. Aquele que defende a crença de que cada indivíduo está destinado à vida eterna, independente de suas ações, em decorrência da bondade de Deus.